terça-feira, 9 de abril de 2013

SIDNEY SANCTUS



SONETO INGLÊS
...Mas se o teu coração vir na colina
d’alma um ódio mesquinho despencando,
recolhe do Jardim a pequenina
flor que na primavera nasceu, quando

tudo era um Paraíso, um livre voo
na liberdade já agora finda. Ando
a procurar tranquilo vale, um Zoo
onde não fiquem homens devorando

semelhantes em ceia leonina.
E toda a violência geral coo
no mar, no grande mar, obra divina
da qual me inundo e assim tudo perdoo,

pois faz do coração pó o odiar;
mister é resistir, viver e amar.


ADÁGIO
Quando emanaste macia, linda, liberta,
trazendo uma suavidade de brisa,
a Lua ficou mais alva e meiga,
cantando brilhantes melodias...
E estragaste a rua escura da noite
iluminando-a com teu fogo aveludado...


SONHOS
 Os meus sonhos em nuvens de esperança
acastelam-se. Tornam-se fogosos,
caminham decididos e garbosos
quando uma luz divina os afiança!

Provocados por vil e vã vingança,
tornam-se pesadelos furiosos,
até que são, tal qual rios caudalosos,
serenados por ventos de bonança.

Ora maravilhosas catedrais,
ora barbaridades criminais,
sonham os sonhos pela Paz alada!

Meus sonhos são estrelas flamejantes,
e tecendo voláteis diamantes,
mesclam-se com nuances de alvorada...! 



   POEMA TACITURNO I
 O barco que foi fulminado
pelo raio cerebral
da esfinge,
afunda no líquido cefalorraquidiano
da meninge...!
A corrente da âncora entalou-se
na laringe
e o mastro entupiu
a faringe...!

As raízes marítimas enroscaram-se
no tronco,
provocando vagaroso esmaecimento
sonolento, sonolento...
O Olho não mais se abriu,
nem os dentes emitiram
o ronco
por causa das gotas
do veneno peçonhento...!

As selvas e o céu
se atrofiaram, amareleceram,
o mar vermelho da nuvem
muito revolto ficou,
e a bucal escada do redemoinho
se quebrou...!

Todas as paisagens da gravura
escura
fugiram, se esconderam;
só ficou o espírito bem temperado
pelo serrote!
Cativo ficou, e não passou
pela vigia
da epiglote...!


CIDADE MINHA
 SANTOS é ao mesmo tempo
sagrada e proscrita.
(Anjo caído nas bocas,
no lodo do cais).
Sinto o sol nas tuas praias,
espalhando aquele calor de liberdade;
observo teus navios
cheios de contêineres, contrabandos
e marinheiros ansiosos
de terra e mulheres;
bebo o teu recuperado mar
ornado de neoninfas, wind-surfs
e o belo nadar do Flipper...!
Amo-te, minha mãe, outrora
açoitada por biônicos demônios,
abençoada por todos os santos!


SIDNEY SANCTUS – É o pseudônimo literário de Sidney Luís dos Santos, nascido aos 17.07.1.960 em Santos / SP. Fez seus estudos fundamental e médio no Colégio Canadá, entre 1.967 e 1.977. Em 1.978, conhece Raul Christiano Sanchez, fundador e presidente da extinta Academia Santista Juvenil de Letras. Sidney fez parte desta Academia, ocupando a cadeira n° 30, cujo patrono era Mário de Andrade. Em 1.979, Sidney Sanctus, juntamente com Raul Christiano, Rafael Marques, Valdir Alvarenga, entre outros, fundam o Grupo Picaré de Arte e Poesia, grupo este que aglutinava escritores independentes, atores, músicos, pintores, cartunistas e artistas diversos. O trabalho do grupo era divulgado pela revista Picaré. Em 1.981, lança o seu primeiro livro de poesias: “Chocolate com Pipoca”, durante a 1ª Feira Nacional de Escritores Independentes, realizada com grande sucesso no Teatro Municipal de Santos. Em 1.982, participa da “Antologia Picaré, uma dúzia de poetas”. Posteriormente, passa a divulgar seu trabalho em várias revistas de poesia independente do Brasil e do exterior. Integrou ainda “Impressões” – Antologia Poética, em 2.009, “Noite das Flores” – Antologia Poética, em 2.010 e publicou “Musa Atômica” – coletânea, em 2.011. Atualmente, é co-editor da revista Mirante. Sua poesia geralmente é hermética, pois foi fortemente influenciado pelos poetas simbolistas e surrealistas. Sua forma preferida é o soneto, e embora respeite as duas rimas obrigatórias nos quartetos, métrica, acentuação e chave de ouro, seu soneto é ultramoderno, com imagens e musicalidade inusitadas, dignas do século XXI, porém, o poeta não despreza o chamado verso livre. Quanto à temática, seus poemas geralmente expressam “os sentimentos do homem perante a colossal magnitude do Universo”. 

                                               CONTATOS: 
Orkut / Facebook: SIDNEY SANCTUS




domingo, 10 de março de 2013

RUY PROENÇA



ENCONTRO

Chegam primeiro
os ventos quentes.
Tomam de assalto
a cidadela.
Os circuitos de proteção
automaticamente
se desligam.
As pontes levadiças
baixam.
Um leque
de ventosas invisíveis
se abre
lentamente
sobre a imagem
do outro
que se aproxima.
Quanto mais se aproxima
mais se revela
sua geografia
de espinhos,
seu corpo
de minúsculos
guarda-chuvas.
A ilha de ventosas
uma a uma
as lanças embainha.
Traz ainda
estoque
de matéria
aderente.
Por um instante
antes de regressar
à escuridão particular
duas impossibilidades
se misturam.


TORMENTA

e vieram os pássaros
e bicaram-lhe os olhos

e vieram os martelos
e pregaram-lhe as unhas

e vieram os funis
e forçaram-lhe
goela abaixo
o que não queria
de jeito nenhum


DESENRAIZADOS

cortaram nossas raízes:
por isso
deixamos de ser árvores

ainda podemos escolher
ser pássaro, peixe
ou outro movimento
que viaje na água
ou no vento

mas nossa consciência de aço
falso (sucata)
pesa sobre nossos ossos

e mal conseguimos
ensaiar um passo


TANTO PESO

uma canoa de ferro
pousada
sobre a areia

ninguém sabe
de onde veio
de que noite

uma canoa de ferro
esperando talvez
braços

que a empurrem ao mar
e com ela
se lancem


FRONTEIRA

Nasci de um acaso.

Como esse muro
à minha frente
alto
dividindo duas vizinhanças.

Alguém me deu à luz,
alguém me tirou a luz.

Não vejo o mundo:
miro o muro.

Dele conheço
cada detalhe.


TIRANIAS

antigamente
diziam: cuidado,
as paredes têm ouvidos

então
falávamos baixo
nos policiávamos

hoje
as coisas mudaram:
os ouvidos têm paredes

de nada
adianta
gritar


Ruy Proença nasceu em São Paulo, a 9 de janeiro de 1957. Engenheiro de minas. Publicou, entre outros,  Pequenos Séculos, Editora Klaxon, São Paulo, 1985; A lua investirá com seus chifres, Editora Giordano, São Paulo, 1996. Participa da Anthologie de la poésie brésilienne, organização de Renata Pallottini, Éditions Chandeigne, França, 1998. Desde 1990 integra o grupo Cálamo de criação poética. Os textos acima fazem parte do livro "Visão do Térreo"(Editora 34, 2007).










quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

JOÃO EDUARDO NETO





A Eternidade no Templo

Anjos
 Uma legião de anjos
Luzes que saem das frestas da garganta
 Preenchem a alma
Elevam
 Espantam...
Um templo adentro do tempo do som
 Mortais elevados ao céu por vozes....
 Tons musicais..
Um povoado de luz dançando entre seres comuns... Méritos aos ouvidos
 A alma inteira
 Ao espírito....
 Vibração incomum tocando a todos na unicidade...
 Um tempo
 Um templo
 Um momento
A eternidade...     



A Felicidade do Poeta
 A Felicidade do poeta
É  feita de pedaços dos segundos
Pedaços dos segundos
Segundos
Que ele tem em seu dia
É feita dos pedaços das pessoas
Pedaços das pessoas
Pessoas
Que ele vê no caminho
É feita das coisas que toca
Do amor que está ao lado
É a felicidade sentida e construída
Sentida e construída
Construída
Pelos momentos que vive
A felicidade do poeta
É feita dos pedaços que ele encontra no caminho
Pedaços do caminho
Caminho
Pedaços de vida
Felicidade de poeta
É pedaço de palavra
Pedaços de palavras
Poesias...


A Morada da Humanidade

Descubra seus desertos
Faíscas de seus mundos paralelos
A unicidade do que é eterno
Construa a primavera em seus invernos
Borde momentos em sua mente
Plante sentimentos em sua morada
Do amor lance a semente
Do universo faça sua estrada
Seja cada segundo
O tempo
A vida
O mundo
Desenvolva o absurdo
A simplicidade de tudo
Ame
Reflita
Expanda
Seja o Deus da terra santa
Emane, vibre, irradie
Desperte
Desapegue
Crie
Aceite
Agradeça
Sinta
Dentro de todos mora a verdade!
Faça de seu jardim interior
A  morada da humanidade...


Comunhão

A natureza é tudo que sou
Vôo com ousadia
Lágrimas sagradas me curam
As aventuras de um messias
Faço da realidade ilusão
E da ilusão realidade
Crio meus mundos paralelos
Estão neles todas as verdades
Levito como o vento
E pouso sutilmente
Sou feito dos pedaços espalhados no universo
Fragmentos, profecias, sementes
Minha alma nua não tem sexo
Meu espírito é livre
Só amo e me entrego
Intensidade
Certezas
Mistérios...


Conselho

Nossos momentos de tristezas são as boas novas de grandes momentos de alegria, existem motivos para tudo e mesmo que não estejamos no tempo necessário para nossa compreensão, quando o barro seca, brota a certeza em nosso coração de que tudo é como deve ser, e se o inverno chegou secando todas as nossas lágrimas com a geada e tirando toda a cor de nosso jardim, é por que ainda virá a primavera para colorir nossa alma e deixar que ela se limpe, e assim teremos a certeza de que cada detalhe em nossa vida é importante para nossa evolução....



A PALMA DO POETA

A  palma do poeta é pena
Tinta, pincel, dádiva
É o próprio poema...

O poeta desenha com as palavras
Ele esculpi, transcede
Pinta, ascende...

Há poesia na terra, nas folhas
Nos dons da pessoa
Na alegria, na nostalgia
Na noite  e no dia...

Há poesia
Na dança do vento
No canto das águas
Em uma estrada vazia...

O poeta é desbravador dos momentos
O poeta é heroi
Cativa, desvela, constrói...

O poeta te destina
Te descreve
Te rima

E dele nada se entende
Pois poetas são abstratos
Loucos
Paralelos...     



Poeta e Professor de Campos do Jordão, organizou a exposição “Desenhos e Poesias”, em 2012, na AmeCampos. Prepara seu primeiro livro.



                                               

sábado, 5 de janeiro de 2013

MAYNARD GÓES




A PROFECIA

E nossos filhos
 Viverão,
Neste mundo
De intempéries
E de tragédias
Na violência
Dos estames
E dos ovários,
Na esperança
Que a dinâmica
Vença a inércia
Dos que mandam,
Nestes dias
Sem flores
E sem carícias.


OS JANGADEIROS DO NORDESTE – CEARÁ (1983)
(Da praia de Iracema para o mar bravio)

Dentro do mar desaparecem
Nas vagas bravias do Nordeste.
A lua cheia sempre está no céu
Em clarões tão límpidos
Gravando o canto das sereias.
A brisa do mar é sibilante
Nas dunas alvas que passeiam.
Eles banham  a vida na luta
Diária do alto mar Atlântico,
Nas ondas que desafiam
Entre noites e cardumes
Nas redes de estrelas.
A solidão, permanece neles
No ranger das vagas na deriva
Que o continente forma...
Longe da terra, se voltam, ignoram!
Mas os seus filhos,
Rotos ali padecem aguardando
Este regresso,
Noites inteiras nas areias.


A MÃE

Quando
O casebre dorme,
Ela pode olhar
Dormindo,
Todos os filhos...
Todos dormem
No mesmo leito!
Ela então percebe,
Na noite que vagueia,
Fria,
A rudeza do instante.
Vê-se neste
Mundo sem futuro!
E pensa,
E repensa,
Entre lágrimas,
Neste amanhã de melhoria,
Que não chega nunca!


O CAMPO

 E o rio se alonga
No matagal rasteiro
E verdejante,
Onde o passaral entoa
Cânticos,
E o sol que se destaca
Ilumina a esperança.
Ali, a terra é grande,
E o caboclo carpe
Lentamente o campo.


A SOLIDÃO

Na madrugada,
O céu tão límpido,
Pálida lua
Passeia no firmamento.
São horas vagas,
E dentro de mim
Campeia este silêncio.
A noite é eterna
Fulguração dos namorados,
Como aquele vulto
De mulher bonita
Que não me deixa dormir.
Os olhos retornam
A caminhada da noite,
Enquanto a solidão
Geme dentro de mim.


CAMPOS DO JORDÃO
(pela madrugada silenciosa)

Dorme,
Minha cidade serrana
Neste céu de estrelas
Fulgurantes.
Dorme,
Deixa-me ouvir distante
O latido febril
Dos cães vadios das estradas.
Dorme,
Minha cidade serrana,
No silêncio das cordilheiras,
Nos braços dos pinheirais.


OS CRAVOS

Cravos vermelhos
Que de portugal jogam
As moças,
Já perfumaram o mundo!
Cravos vermelhos,
Cheias as jarras,
Que os líbios cantam.
Este sol que nasce
Na primavera social
Doss tempos.


A NOITE

A noite,
Se tem mistérios,
É dessas estrelas
Que pintam os céus...
É dos corações
Que se amam
E se recordam
E se perpetuam
Na saudade.
A noite,
Se tem mistérios,
É dos velhos segredos,
É de todos os beijos,
Que se esgotam
Nas bocas e nas mãos
Que se afagam.


O TRABALHO

No lápis,
Tenho a minha
Enxada,
Nestes momentos
Comuns
De poesia
E de trabalho.


O POVO

O povo
É este que
Ama,
Que odeia,
Que esquece.


 DANÇA

E me chamaram para
Ver a dança...
O povo que invade a praça.
Que ri, que canta, que dança!
É o amanhã que esperam,
Manhã que não tarda
Depois da noite de estrelas!

Maynard Góes, advogado, jornalista, escritor e professor, é baiano de Salvador, radicado em Campos do Jordão desde 1964. Aqui foi vereados (presidente da Câmara Municipal) e Presidente da Academia de Letras. Os poemas acima fazem parte do livro “A Terra de Nossos Filhos”, de 1985.

domingo, 16 de dezembro de 2012

GERALDO TROMBIN

INVERSÃO DE PAPÉIS

Nada por aqui está mais como antes:
No ar, o revoar dos elefantes;
Pássaros ao chão em sons dissonantes;
O crescer desordenado dos infantes.

Nos rios, lampejos mil, alucinantes;
Nas nuvens, águas negras abundantes.
Nos campos, flora e fauna destoantes;
As pessoas vivendo como errantes.

Que está acontecendo, meu Deus do céu?
Por que essa tamanha inversão de papel?
Bom virando réu, mal bem para dedéu!

Decoro e honestidade sempre ao léu;
A natureza indo pro beleléu!
Difícil para alguém titrar o chapéu!


GARIMPAGEM

Na exploração,
Extração,
Na peneirada
Dessa tenra maior idade,
Sobrou bruto coração;
Valiosa jazida,
Preciosa pedra,
Sensibilidade qu´inda não medra,
Esperando ser lapidada
Antes da partida,
Da jaz ida
À lápide insculpida,
Ao tumular doce lar.


BORBOLETA & AR


Um pelo outro, deixa-se levar,
Vento, asas da imaginação,
Borboleta e ar.

Borboletear
Como lançadeira de tear,
Indo e vindo na fiação,
Tecendo em voos lúdicos, únicos,
A  arte de voar.


PRESEPADA

Após transformar
Em comercial
O espírito do Natal,
O soar do pequenino sino de Belém
Ficou muito aquém:
Virou uma presepada.
A noite que era tão bela
Sob a luz da vela da capela,
Hoje não representa mais nada!


DE LÍRIOS AOS DELÍRIOS

Apreciais a beleza dos lírios;
Acompanhais a fidúcia dos círios;
Pingais na irritada visão colírios;
Agradecei a luz dos lampírios;
Aprendei com a via crúcis, os martírios;
Sonhais aos montes, aos delírios.


VIDRAÇA DE POSTIGO

Estou eu mesmo, sozinho aqui comigo,
Contemplando o meu próprio umbigo,
Pagando caro por interminável castigo.

Estou eu "andarilhando" a passos de mendigo,
Suplicando pela segurança do abrigo
Onde habita o afável sorriso amigo.

Estou eu abrindo a minha vidraça de postigo
E, pela fresta, expondo-me a todo tipo de perigo,
Na esperança devolutiva do meu amor que ainda está contigo.


ÍNTIMA IDADE

Juntos,
O meu, o seu pijama,
Deitando e rolando
Na mesma cama.

Jogo de cintura,
Pano pra manga,
Pernas, pra que te quero!
Afagos, carinho e lero-lero.

O meu botão
Invadindo
A casinha
Do seu blusão.

Leito de emoção,
Deleite de paixão.

Geraldo Trombin (Americana, SP) é publicitário  e um dos escritores mais premiados do Brasil. Os poemas acima foram extraídos do livro "Só Concursados   - Diversos Poemas, Crônicas e Contos Premiados", de 2010. Lançou em 1981 o livro "Transparecer a Escuridão", de crônicas e poemas. Contato: gtrombin@terra.com.br

sábado, 1 de dezembro de 2012

NAYARA FERNANDES




"No paradoxo que me veste sou apaixonada pela beleza de dentro:
Beleza que arrepia os poros.
Beleza que estremece o todo.
Beleza que dignifica a autenticidade da beleza fora".


“Somos sementes a brotar em outros jardins.
Somos voz do sentir alheio que não diz.
Somos chegada e partida da poesia”.


“Capa é:

Máscara sem rosto.
Beleza vazia do [intelecto do todo].

Conteúdo é:

Cabeça que equilibra o corpo.
Cérebro que conduz a [beleza infinita] de ser um sujeito culto”.
  

"É tempo de novos tempos.
Tempo de crescimento;
tempo de amadurecimento;
Tempo de florescer para dentro.
Tempo de abrir à porta para o eu autêntico.
Entre novos e velhos tempos sempre há tempo para o recomeço".

"Fases
faces
inúmeros disfarces encontro na poesia
Leio milimetricamente cada linha
Ouso atenciosamente as entrelinhas
Cuido do sofrer com coração
Cresço
 Amadureço
 Pra dentro floresço
Fora aqueço com febre do saber que me o causou".

"Vamos que voamos nas asas da Poesia.
Voo eterno ainda que o poeta não mais exista".
"A palavra é sacra.
O poeta é Alma.
Deus inventou a vida.
O poeta reinventa-se com o raiar do dia.
Poeta é quem nunca sobra de vítima: é herói e bandido.
Mímico que traduz ternura com gestos mais simples.
O único ator que pode inverter qualquer cena.
Palhaço que arranca sorriso ainda que a própria vida seja cinza.
Permanece firme ainda com lágrimas dos olhos caindo.
O poeta é inventor das mentiras sinceras.
Que de tão sinceras torna-se uma delas".

 "Ninguém é exatamente o que versa.
Poeta é inventor de si.
Por isso poetiza-se.
Poeta é inverso ao que verdadeiramente é.
Escreve para ser verso da fábula que escreveu".

"Poesia é fênix.
Fênix da Alma em metade.
Fênix da dor que não sara.
Fênix da lágrima sangrenta.
Fênix do poeta imundo do homem.
Fênix da ferida incurável da frieza humana.
Espírito de luz magistral.
Poesia é orvalho que umedece a aridez da Alma".


Nasceu em 02 de setembro de 1988. Nordestina, piauiense, filha de Teresina. Cadeirante. Estudante. Poeta não se faz: se nasce.  Nayara nasceu. E lá de sua distante morada faz ecoar sua voz de brasileira menina, que não se abate nem se abala, e com o poder de seus versos faz questão de dizer que vive, que sente a poesia, que escreve e que tem algo a nos dizer. No meio de tantas lutas diárias, sonha em ser jornalista e publicar seu primeiro livro. "Tá difícil não", dizem os passarinhos... 


terça-feira, 9 de outubro de 2012

EDELSON NAGUES




IMPRECISÃO

O que mais espanta 
é o homem, sempre,
querer-se exato.

Pois sua medida
perde-se nas trincas
de seu próprio ato.

E, se o ato trinca,
permite o assalto
da imprecisão.

E esta, insolente,
espalha-se por tudo
(grama pelo chão).

Feito epidemia,
todos contamina,
alhures e aqui.

E o homem, pego,
perde a medida,
perde-se de si.

E, uma vez perdido,
o homem se lança
ao léu das palavras.

Mas estas, latentes,
menos se revelam
quanto mais se cava.

Mas revelam o homem,
que, à sombra delas,
tenta se esconder.

Ele, então, desnudo,
mostra-se inteiro
em um outro ser.

Só assim, desfeito,
o homem se refaz
da potência ao ato.

E, ao refazer-se,
torna-se complexo,
ainda que inexato.


MUNDOS

I 
Solidão -este é o nome
do mundo a que pertenço.

Entre milhões, solitário,
carrego a vida in progress
e um projeto dr morte.

Sem plano de voo que o valha,
entrego-me a tal desdita
como quem se fizesse escravo.

II
No trajeto, me deparo
com seres também solitários.

Traçamos, então, paralelas
que insistimos trilhar.
Mesmo que olhares, mãos,
gozos e outras ânsias
se cruzem por linhas incertas.
(Pois solidões que se toquem
ainda serão solidões.)

III
De onde vem o solitário?
Qual a linhagem? a essência?
o ponto de interseção?

A resposta, em parte,
acaba por revelar-se
na face de cada um:

o solitário, por certo,
vem de outro mundo
-o de dentro.

O resto é só disfarce.


UNIVERSO

O nada 
é o limite
de tudo.

Não importa:
estou cego
e mudo.

Sigo
contando
estrelas.


NOTURNO DE RUA

Vagueio
no silêncio morto
      das ruas mortas.
Entre casas escuras.
Entre vidas escuras.
Entre sentimentos
      desmitificados.

O silêncio me invade
(e eu me transformo
      numa dessas ruas).

O silêncio está nos homens.

Somos, todos, ruas
     noturnas e desertas.


RESUMO

Não tenho nada a temer.
Por isso é que sou livre.

Não tenho tempo a perder.
Só vou aonde nunca estive.


EDELSON NAGUES é o nome literário de EDELSON RODRIGUES NASCIMENTO, mato-grossense de Rondonópolis e radicado em Brasília. Poeta, escritor e servidor público, estudou Direito e Filosofia, com pós-graduação em Língua Portuguesa, com vários trabalhos premiados em concursos literários no Brasil. Os poemas acima fazem parte do livro "Águas de Clausura", de 2011. Contato: edelnasc@yahoo.com.br