quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

GASPARINO JOSÉ ROMÃO


NÃO MALDIGO ESSE TEMPO

Não maldigo esse tempo, em que estou retido
Como pena a cumprir, qual fosse um condenado,
Pelo passar das horas, num leito deitado,
Remoendo do destino os transes percorridos.

Exposto nesta cama, aqui cheguei trazido,
A buscar a saúde ao corpo já cansado,
Inquieto coração, no peito amargurado,
Pulsando sem compasso, ingênuo e constrangido.

Consciente ao Criador, nas minhas pobres preces,
Tão grato o que na vida achei na minha messe,
Enquanto labutei no seara e muito brilho.

Que importa se dos Céus meu fim for decidido?
Importa-me, tão só, lembrar que o tempo ido,
Por mim foi de vencida, sem tréguas e empecilho.


EM ALTO MAR À TARDE

No pacífico oceano, imensamente frio,
Qual mundo de mistério, havido em seus vagares,
Navega sem temor, à frente, o grão navio
Qual fosse uma gaivota, airante pelos mares.

Na solidão da tarde no Céu quieto e vazio...
Gaivota solitária em vôos regulares,
Planando sobre as ondas deste mar sombrio,
Volteando pelo espaço a chilrear nos ares.

Ao longe, na distância, o Astro-rei em crises,
Dourando o fim do dia, envolto em seus matizes,
Despede-se da tarde em místico esplendor.

E a alma, em seu silêncio, formula a sua prece,
Na doce claridade que, aos poucos, esmaece,
Contrita, agradecida, eleva-se ao Senhor.


PARODIANDO CAMÕES

Sete meses no balcão Joaquim servia,
Ao Manoel , português lá da Estrela,
Que transava com a mulata Isabela,
Que era a sensação da Padaria.

Nem um dia o português que a protegia,
Viver no dia a dia assim sem vê-la,
Por isso trabalhava ao lado dela,
Distanciado o morruga padecia.

Certo dia o português que, lá no “Caixa”,
Vinha há muito a suspirar em maré baixa,
Botou Joaquim na rua com bravata.

Joaquim, que sempre fora um cabra macho,
Saiu sem dar estrilo, cabisbaixo,
Vingou do Manoel: levou a mulata!


SEGREDO TRISTE

Em teu silente olhar eu leio uma mensagem,
Que, oculta, a guardaste sem ser revelada;
Que coisas, outras tantas, nesta vã passagem,
Sem ter razão, quiçá, tu as tenhas ocultada.

Na volta dos teus dias, em tua vã romagem,
Que em suma nesta vida, enfim, ficou marcada,
Carregas, como um fardo, uma pseudo imagem,
Insígnia pesada no coração guardada.

A cultivar, no entanto, o coração liberto,
Em falsa alegria, o teu viver, por certo,
Terá novo vigor que à solidão resiste.

E, quando a vida exulta e a liberdade amplia,
Ao certo cantarás, teu mundo de alegria,
No teu olhar silente em teu segredo triste.


A HARPA LÁ NO CANTO

Calada, silenciosa a um canto lá da sala,
Semelha-se dormir sozinha e abandonada.
Escrínio de poemas, no silêncio, a fala
Da música serena às cordas dedilhada.

Trazida bem de longe, ao som da vida, embala
Os corações românticos, escutam na escalada
Das cordas, o tanger perdido nas quebradas,
Da solidão do mundo, que em nossa alma cala.

Qual símbolo do amor da nossa alma, espanta
A estranha incompreensão que, às vezes, se levanta
No âmago insondável do nosso pensamento.

A vida é como a harpa, eivada de incerteza.
Jamais a entendemos, em mística sutileza,
Na solidão do mundo, em seu encantamento.

DESPRENDIMENTO

Não quero as cinzas do negror da noite,
Não quero a geada do rigor de inverno,
Não quero o vento no seu duro açoite,
Ao coração não quero o frio interno.

Nem a lembrança que no peito amoite,
Não quero as chamas de um suposto inferno,
Não quero as juras que o passado acoite,
Nem das belezas o paraíso eterno.

Eu quero, apenas, no viver de agora,
As mesmas coisas do meu tempo, outrora
Vivido, e não pensado, ao meu rodeio.

Que flua a vida, na minha consciência,
Sem que perturbe-me a maledicência,
Dos preocupados, do viver alheio.


AS ÁGUAS NÃO VOLTAM

Procura andar pela vida, por retos caminhos,
Que os passos percorridos atrás não voltarão.
Não adianta pretenderes revolver o passado,
Que só terás dissabores nas tuas recordações.

As águas correm rumo ao grande Oceano,
Não voltarão a passar sob a mesma ponte.
A roseira secou as suas folhas e pétalas
Da rosa entreaberta, espalharam-se no chão.

Não voltará à roseira a rosa que caiu
Como ao leito do rio as águas não voltarão.
Eu não suporto mais viver reminiscendo,
Embora sejas para mim toda a minha vida.


Um dos maiores sonetistas brasileiros da atualidade, Gasparino vive em Guarulhos e é membro da Academia de Letras de Campos do Jordão . É autor de 22 obras publicadas, entre Poesia, Direito, Religião e História. Os poemas aqui presentes fazem parte do livro “O Mar das Minhas Ilusões”, seu último livro. Contato com o autor: escritor@gasparinoromao.com.br .

domingo, 22 de janeiro de 2012

ALVARO POSSELT


Entrada secreta
- Como você entrou aqui? - perguntou-me o diabo.
- O cabo do elevador se rompeu!

O avarento
Detesto dever para alguém, mais ainda para um avarento. O vendedor de coxinhas ia toda tarde na firma.
Fiquei devendo dois reais a ele. Morreu. No velório, O filho da mãe de olhos abertos me secando.
Agora não devo mais nada. Peguei duas moedonas e pus nas vistas dele.


De gude
O netinho tem uma coleção de bolinhas. Tem buricão, carambola, acinho, chazinha e leitosa.
Agora apareceu com uma tal de caolhinha.
Fez sucesso no jogo de búrico até a mãe descobrir onde foi parar o olho de vidro do avô.


HAICAIS

Tarde no jardim -
Desprende-se do galho
uma borboleta

Novo calendário -
Recebem tinta fresca
as velhas promessas

Fogueira junina -
Se misturam às estrelas
fagulhas no céu

TERCETOS

Noite do espanto
Fui baixar um arquivo
baixou-me um santo

Meu violão me intriga
Morre de tanto rir
se lhe coço a barriga

Entre arranhões e lambidas
para cuidar de tanto gato
precisarei de sete vidas

Vou beber até que amanheça
Todos os problemas passam
Só fica a dor de cabeça

Preso todo cachorro late
Se eu fizer o mesmo
então vai dar empate

Não cresceu com fermento
Para o pão ficar grande
usei lentes de aumento


Alvaro Posselt é professor de português e revisor de texto.
Nasceu em 02/12/71. É curitibano. Participou de coletâneas de haicais, poetrix e miniconto.
Tem haicais e miniconto classificados em concursos. É colaborador do Jornal Memai - Letras e Artes japonesas.
Contato: alvaroposselt@yahoo.com.br

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

TERESA BENDINI



SOLIDÃO

Quisera pintar a solidão
Porque sou eu a luz que é dela
Na minha não tradução.

Que vasto mundo absorto,
De cores silenciosas,
Mergulho tão numinoso
Em luzes vertiginosas

Afetos só falam mudos,
Palavras são estrangeiras,
Olhares têm só vislumbres,
Dos mundos que nela beira.

Solidão, tu és Deus de tão sozinha!
Tu és alma minha!
Inteira!

POEMA SÓ

Não pense nada que não te faças extasiar.
Não pense política ou futebol.
Não pense notícias de jornal.
Não pense o mal.
Não pense mal.

Pense só!

O lá.....

O sol.

O MAR

Gente e mar...
Tem algo em comum
Um movimento
Uma linguagem
Uma linhagem
Azul?

Mar revolto
Mar grosso
Marola...

Mar que é calma
No fundo do mar
No fundo da alma.

No fundo dos olhos
Há mar

Amar o mar
No fundo dos olhos
Molha

O mar no fundo dos olhos
Olha
O mar no fundo dos olhos
Molha.

Mar morto
Mar negro
Olhos marejam
Vermelhos...

Vermelho mar.

Do fundo do olhar
Gotas de sal
Ondas do mar

Rolam...

O amor
O amar


MARTELINHO DE ESCULTOR

Meus filhos são poemas secretos
Meu olhar julgador
Não sabe lê-los.

Pensa que são: - Obra-Prima.

E neles fica batendo,
Com martelinho de escultor,
Conselhos e filosofias...
Achando que são: Obra minha...
Os filhos do meu Amor!

MANHÃ

Queria por manhã nos meus momentos,
Pois é sempre manhã no tempo em que pertenço.
Eu queria que manhã fosse...em todos os momentos.
Só assim, ela seria minha ...e à vontade.
Brinco com ela de ser eterna e ela se espreguiça.
De manhã eu aconteço!
Manhã... e eu já brilho.
Manhã... e eu já vivo.
Manhã... e eu sou radiante.
Manhã... e eu amanheço.
Queria minha vida de manhã.
Uma manhã de vida.
Passo uma manhã com minha vida
E já não quero que ela passe.
De manhã, eu a quero toda...
E a chamo: Manhã


ABELHA

Abelha que quando pica,
Morre

Quisera eu ao picar,
Morresse

Eu não sabia que ao ferir
Morreria

Já morri tanto e tantas Vezes...

Se soubesse, não Morreria

Quereria viver

Morrer, não ousaria

Quereria viver

Viver tanto e tantas Vezes

Que ferir, não saberia


Bishop (in memorian)

Ser infeliz não chega a ser mistério
Ser infeliz não trás em si nenhum mistério
Que mal há em achar o mundo agônico
Em sentir-se:
Escroto
Estorvo
Em querer-se morto,

Que mal há?

Posso dizer que ser infeliz
É tão comum.
Não vejo nisso mistério algum.
Mas em sorrir...
Há
UM!


Da nova geração de escritores de Taubaté (SP), autora de livros infantis e ativa participante dos Movimentos Poetas do Vale e Confraria do Coreto.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

MÁH LUPORINI



LEMBRANÇAS PERDIDAS

Deito em um campo verde
Observo as horas mortas da noite
Mergulho em meus pensamentos
que como a onda do mar
trazem lembranças perdidas
que guardo numa gaveta
trancada a sete chaves.
Desperto com o toque suave
da brisa,
Hoje, vivo na incerteza da vida
como uma folha seca que o vento carrega.


PENSAMENTO

Vivo como o vento,
Não sinto meu pensar.
A poesia é meu ópio na melancolia
de rendas noturnas.
Versos rebentem
no meu jardim sombrio.



CONFISSÕES I

Tenho passado por situações em minha vida
que não sei como explicar,
dúvidas existenciais.

Começo aqui com um verso do meu guru
Fernando Pessoa que dá voz á Bernardo Soares
no Livro do Desassossego que diz:
" De repente, estou só no mundo"

É assim que tenho me sentindo ultimamente.

Seres humanos são complexos,
horas querem, horas não,
mudam constantemente de opinião.

Não consigo me encaixar dentro de tudo isso.
Não sou normal, também sou muito complexa
em relação a vida, amores, etc.

Se nós jogamos para a vida,
o tombo é dolorido e se ficamos
neutros em relação a ela, sentimo-nos sós.
E então, o que fazer? Não sei como reagir.

Fantasmas me surgem cotidianamente,
sombras inquietas me surgem no silêncio adormecido.
Se durmo, elas me assombram,
se acordo a claridade,
as pessoas me assombram.

Queria ter asas para voar
como uma borboleta sem destino
ou um pássaro que não tem certo o seu pouso,
me fariam feliz.

Veria o mundo do alto das campinas,
teria o silêncio e o azul vago sobre mim.
E no fim teria um descanso,
como as flores do meu jardim.


À memória de
Ana C. Cesar

Folha branca
espera a queda
de tua ausência

* * *

Letras marcham no pálido quarto
bebo-as em versos
crio asas e regresso ao blecaute do meu corpo


Á memória
de Roberto Piva

Furacão
que silenciou
as asas do tempo


SOLIDÃO II

Encontrei-me
Recortando a solidão
Nas horas que me vestem

Armazeno tua nudez
entre cálices e bilhetes

* * *

O tempo é um suicídio
de palavras, onde me
E q U i L i B r O



INSÔNIA

Rendas mudas

tricotam

a noite


Os três últimos poemas são do próximo livro de poesias da poeta Máh Luporini, para ser lançado em 2012. Ainda sem título definido.


Poeta e jornalista do jornal cultural “O GRITO”, iniciou seu trabalho literário em 2009 no Espaço Cultural Chico Triste, da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, de São José dos Campos onde integrou o “ESPAÇOPOEMA” com suas poesias. Em 2010, teve seu livro de estréia “Ausências” (poemas- Ed. da Autora) lançado na 3º Edição do Festival Literário “Diálogos na Literatura” integrando o espaço “Cassiano Ricardo” no distrito de São Francisco Xavier, SP. Tem poemas publicados em vários blogs e sites de literatura na internet. Teve participação do DVD “Vozes Daqui” durante a 43º Semana Cassiano Ricardo em 2009; Menção Especial no VIII Concurso de Poesia “Poetas do Vale” realizado na cidade de Taubaté, SP; Participação na 44º Semana Cassiano Ricardo no evento “Todas as Letras de São José” em 2010; Participou da 21º Bienal Internacional do Livro de São Paulo onde teve alguns de seus poemas no livro “Cronistas, Contistas e Poetas Contemporâneos” (Série Safira) do Projeto Literário Delicatta com a participação de outros escritores. Participou do projeto “Ciranda de Poesia” organizada pelo Ponto de Cultura Bola de Meia, em julho de 2011. Reside na cidade de Monteiro Lobato, SP. Natural de São José dos Campos. Colunista do site “ENTREMENTES”; http://entrementes.com.br

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

LEANDRO MONTEIRO DE OLIVEIRA


UM VASO

UM VASO,
UM CACO,
UM FURO,
AI QUE DOR!

TROVA AGNÓSTICA

O meu céu só tem estrelas,
Planetas, sol... Nesse cosmo
De infindável Existência,
Cuja verdade é os olhos.

TÍTULO

Pode ser curto
Ou um pouco mais longo.
Não é poesia, conto, romance, artigo de jornal ou qualquer texto...
Já que tem apenas uma linha.
Ele está na essência
(que, agora, está no papel)
Do cosmo, do mundo ao qual pertence:
Fatos, coisas, seres, gentes, conceitos...
Podendo ser tudo.
Assim, ele é o início de tudo,
O primo-verbo,
O verbo-nominativo
Que originou a existência
De um ser que antes não sabia que vivia.
E que, agora, vive.

O UNIVERSO II

Uma árvore morre,
Outra nasce. Deus consagra
A vida, a morte.

PROFECIAS

São como jarros de barro,
Debaixo de torneiras
A pingarem
Em dias ensolarados:

Por mais que o sol
Venha a evaporarem
As gotas d’água,
Cedo ou tarde,
Os jarros as transbordarão.

FESTA SOTURNA

As noites vêm
As horas passam
As rodas cantam
As balas dançam
Todos os dias
Todas as noites
Neste Brasil...

As noites ouvem
As horas passam
As rodas cantam
As balas dançam
Em tênues pistas
Cinzas, bucólicas
E citadinas...

Onde os valentes
Refutam carros
De quem oferta
Contudo, mudam
Os que interessam
(Muito para eles)
Nesta soturna
Festa noturna...

Onde o silêncio
É a casa, abrigo
Pra violência
Som estridente
De cujos gritos
São magnas músicas
Das ações sujas...


XIII (DE ALQUIMIA DO NONSENSE)

Vassoura varre as estrelas
Aspirador suga as massas negras
Eu agora sento sobre a mesa rasa
Comendo o tempo
Que me alimenta
E me mata


Nasceu em Taubaté em 07 de novembro de 1983. Formado em Letras. Sua poesia aborda diversos assuntos como o amor, a religião, a política, a sociedade e a própria arte poética. Escritor com destacada participação no movimento literário taubateano contemporâneo. Contato: leandremon@bol.com.br

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

TATIANA ALVES SOARES CALDAS


OUTROS MARES

“Metade da minha alma
é feita de maresia”
(Sophia de Mello Brayner Andresen)

Metade da minh’alma é mar
E a outra, maresia
Vem o mar, e lambe a areia
Em sensual euforia
Destrói castelos na cheia
E na rasante esvazia
Metade da minh’alma é mar
E a outra, poesia.


UMA NOVA CANTIGA DE AMOR

Reclamas do calar de minha pena
Como se teu amor eu não cantasse
Como se um pequeno e vão poema
Desse conta do quanto eu te amasse

Não percebes que o silêncio é reflexo
De um sentir em palavras incontível
De um amar tão ardente e complexo
Que me torna tal tarefa impossível

Não preciso dessa trajetória errante
De provar, numa incessante ladainha,
Que nos braços do meu verdadeiro amante
Mais que Musa, eu me torno a Rainha


ERA UMA VEZ

E no final descobriu-se que o príncipe era um sapo
Coacha e resmunga durante o dia
Ronca feito porco à noite
E a princesa, coitada,
Rola na cama pensando na sua vida de conto de fadas
Pobre princesa!
Tivesse sabido antes,
E teria ficado com o dragão...


CERTAS NOITES DE ABANDONO

Certas noites de abandono
Daquelas que roubam o sono
Aquelas que têm lua linda
Noites em que a mágoa não finda

Certas noites de abandono
Verões com cara de outono
Serões com cara de ainda
Em que aguardo tua vinda

Certas noites de abandono
Pedem colo, querem dono
Mas tua voz me melindra
E a taça já não brinda

Certas noites de abandono
Convertem-se então em motim
E eu, triste, assisto ao fim
Desse rei que ora destrono


MULHERES DE ATENAS
(resposta)

Puseste em tua viola todas as mágoas que havia
Na cidade que condena a mulher à atrofia
Confinando-a em casa, numa eterna agonia
Impondo-lhes sempre o ritmo, uma vã monotonia
Seus lamentos são calados, marcados pela atonia
Seus presságios são malditos, tomados por histeria

Tapeçarias, bordados, da mulher que ainda fia
Que aguarda o retorno do esposo, numa lenta apatia
Fiandeira incansável, tecelã-melancolia
Enquanto o viril companheiro a sua volta adia

Mesmo a virgem inocente, a que de nada sabia
Vive fadada à mesmice de uma existência vazia
Banha-se em rios, ardente, e o corpo acaricia
Mas a cidade a vigia e a moral a denuncia
Pois é negada à mulher essa febre que arrepia

Não preciso, ó poeta, cruzar os mares de um dia
Para olhar esse retrato que te motivou a elegia
Não foste entendido, poeta, não te viram a ironia
Continuam a prendê-la, clausura sem alforria
É hora, então, de calar, de cessar a melodia
E esperar que isso não passe de uma eterna profecia


A MUSA E O POETA

Se algum machão a visse, tão ardente, quase em brasa
Cortar-lhe-ia a asa, mandá-la-ia p’ra casa

Se algum vassalo a visse, pensaria que é princesa
Render-se-ia à beleza, chamá-la-ia de Alteza

Se um fiel a encontrasse, qual sibila-profetisa
Deixá-la-ia indecisa, perdê-la-ia na brisa

Se um padre a encontrasse, logo assim tão gloriosa
Achá-la-ia briosa, metê-la-ia na tosa

Mas se fosse um poeta a topar com essa Medusa
Olhá-la-ia nos olhos, chamá-la-ia de Musa.


ODEIO QUANDO ME ESTRANHAS

Odeio quando me estranhas
Quando não ouves a queixa
Quando me fazes de gueixa
Quando as iras são tamanhas

Odeio quando me estranhas
Quando puxas as madeixas
Quando após o amor me deixas
Quando liberas as sanhas

Odeio quando me estranhas
Quando ignoras, calado,
Esse amor aprisionado
Que me corrói as entranhas


LIRISMO DA BOA MOÇA

Não tangerei uma harpa
E seus toques proibidos
A mulher do não-me-toques
Tem desejos reprimidos

Não tocarei uma tuba
Hedionda e assustadora
Invocando imagens selvagens
De uma mulher predadora

A cultura mata a bruxa
Mulher fatal é uma praga
Na inquisição literária
Só há lugar para a fada

Não posso usar a vassoura
Pois me lançam à fogueira
Meu lamento arde em chamas
Minha queixa é verdadeira

Tocarei, então, apito
Em sinal de bom protesto
Nele ecoa o meu grito:
Sou poetisa; não presto


FILHAS DE EVA

De Eva sou filha
Sou filha da vida
Trazendo nas mãos
A linha bandida
Sem grana pro esmalte
Temendo que falte
Um tempo pro filho
Mas sofro e resisto
Joelho no milho
Clausura, tortura
À fêmea que salte
Mais alto que o macho
Que voe acima
Que negue o capacho

De Eva sou filha
E dela herdei
O lado cadela
O fardo-costela
A louça, a família
Destino de filha
Lembrando, perene,
O delito solene
O odor de maçã

Sou filha de Eva
Maldita e expulsa
Que causa repulsa
Nos patriarcais
E peço meus sais,
Meus cremes, meus ais
Frescuras, tonturas
De fêmea ferida

De Eva sou filha
De um Éden perdido
Lugar sem retorno
Mas olho em torno
E sigo em frente
Não baixo meus olhos
Recuso antolhos
C’um meio sorriso
E danço e blasfemo
No meu Paraíso
Que envolve prazer
Que traz uma cica
Sabor agridoce
Da gana da vida


REDEMOINHOS DE MIM

Não sei se foi Deus ou o Diabo
Não sei qual será o meu fim
Adentro sertões e riachos
Enfrento um mergulho em mim

Num disfarce-cangaceiro
Minhas trilhas são assim:
Mulher-dama ou donzela
A guerreira Diadorim

Desprezo laços e rendas
Com aroma de alecrim
Por entre rochedos e fendas
Escondo a mulher que há em mim

Busco trilhar várias sendas
Qual bacante num festim
Ao sabor de vários ventos:
Redemoinhos de mim


DELÍRIO

Batidas na porta:
Aldrava
Ofício maldito:
Escrava
Vulcão que se agita:
A lava
Voz que se liberta:
Destrava
Delírio poético:
Palavra


DE CÔNCAVOS E CONVEXOS

Deixa eu ser a tua bússola
Já que tu és o meu Norte
Deixa eu bancar o artífice
Já que tu és o meu ouro
Deixa eu ser a tua cúmplice
Já que tu és o meu crime
Deixa eu ser o teu vértice
No ângulo reto da vida
Deixa eu ser o teu cálice
E bebe em mim o teu prazer
Deixa eu ser a tua música
E me toca em harmonia
Deixa eu ser teu porto firme
Já que és minha viagem
Deixa eu ser tua bonança
Já que és minha tormenta
Deixa eu manter a esperança
Nesse amor que me atormenta


ESSÊNCIA

Sou cética
Sou ética
dialética
E isso me torna patética

Sou prática
lunática
dramática
E isso me torna antipática

Mas também sou esteta
secreta
completa
inquieta
E isso me torna Poeta


MACHADIANAS – LV

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura
Traz nos olhos oblíquos uma faca
Desperta em mim o germe da loucura
Cruel serpente, que surge e me ataca

Não compreendo, ó estranha criatura,
Mulher que dentre as outras se destaca,
Se és doença, se és minha cura
Se és meu mar, se és minha ressaca

E tal ressaca lançou-me ao rochedo,
À maldição de ser um Dom Casmurro
Agora digo, em forma d’um sussurro:

Morri por dentro! Eis o meu segredo
O meu ciúme não mais me estraçalha
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!


SER-TÃO

Nos sertões desses Gerais
No meio do redemoinho
Enfrentando vendavais
E seguia o meu caminho

Sem jamais olhar pra trás
Buscava eu a verdade
Mais que Cristo, Barrabás
Eu roubava-me a metade

Nos buritis, no cangaço
Até o demo desafio
Ignorando o cansaço
Conquisto coragem e brio

A donzela travestida
Surge, oculta nas veredas
E eu, em busca da vida,
Vejo facas onde há sedas

Perco a bela Diadorim
Seus verdes olhos de mar
E vejo em seu triste fim
O amargo medo de amar

Chego, então, ao lado oposto
À outra margem do rio
E constato, a contragosto,
Que aqui também é vazio

Descubro então a verdade
Entre o vazio e o cheio:
Buscava a minha metade
Que sempre esteve no meio.


Os poemas acima fazem parte do livro Harpoesia (Oficina Editores, 2009), da Professora (especialista em literatura portuguesa) e Escritora Tatiana Alves Soares Caldas, uma das mais premiadas poetas brasileiras.