domingo, 14 de agosto de 2011
CAROL BUENO
Andarilha
Suspiros ofegantes, ideias delirantes
músculos latejantes, desejos sufocantes!
Faça-me amante, seja eu errante,
vadia ambulante, na busca incessante,
ainda elegante, embora exaltante,
pelo...
galante...
que não me soube a
m
a
r.
Desencontro
Meus olhos secaram.
Lágrimas são reminiscências.
Cética, fria
amor desconhecido
falta de poesia.
Não! Não existe amor a dois,
Apenas amo-te e amas-me
Cada um na sua frase
Cada um na sua oração
Cada um no seu contexto
Texto, história:
prosa impar
Individual!
Amo-te e amas-me
E pára, não vai além
Na nossa história
Estamos separados
O autor quis assim
Eu no capítulo Amo-te
Você no capítulo Amas-me
que não se encontram
Ah... mas está inacabada
Coloquem em nossos túmulos:
‘to be continued’...
Às vezes um grande amor
não cabe no espaço de uma vida...
Interpretação do Silêncio
por um amor maior
Olha ao redor...
Encontra-se só, mas não tem saudade
não tem necessidade...
A ausência de movimento, de som
evidencia ainda mais o pulsar de um coração
...coração bate, alguém vive...
(Apesar do silêncio!)
Não seja desilusão, também não o é esperança...
é senão a PLENA consciência de viver,
estar vivo e sentir o coração bater (... apesar do silêncio!)...
Apesar de, há vida:
essa luz ínfima que não sabe que aguarda alguém
(ou ainda guarda, não sei...) que lhe faça resplandecer de novo.
Supra-arte esse momento de reclusão,
purgatório de emoções, purificação de sentimentos.
Por um amor maior que ainda será, mas que por hora paira no silêncio.
O que ou quem? Mania de pensar!
A maturidade aliena
A consciência condena
Mas o instante existe
Vive quem liberta
Ainda que em breve retorne
à realidade sem poeta.
porto a deriva
como consegue guiar seu caminho
no mar sempre eterno que a vida impõe ?
como que pode, barquinho sem vela,
andar teimosinho
sem nenhum carinho?
diga-me albatroz
que de cima tu vês
eu sou o seu porto ou quase já morro
por porto não ser ?
barquinho malvado
ah, tenhas cuidado pois vais perecer.
seu porto te espera anseia aguarda
barquinho vem logo,
o porto flutua, incerto, a deriva
assumo barquinho: mais forte é você.
Vestígio de solidão
Por não ter você
a Poesia nasce
Ah... quem me dera
trocar estas palavras
por um sorriso sequer!
Essa poesia não é bela
Seja você presente e não ela.
Jordanense, professora, escritora, poeta, autora inédita, premiada no Concurso Poetas do Vale, Taubaté.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
KARINA ALDRIGHIS
FIM DE NOITE:
A lua adoece,
O tempo esfriou,
O dia anoitece,
O Sol descansou.
As nuvens recobrem
A abobada celeste
As estrelas cobertas
Quase desaparecem.
Vento brando,
Porém gelado,
Frio de inverno
Calor afastado.
Noite escura,
Sem Lua, sem luz
Tempo fechado,
Que não me seduz.
Noites românticas,
Ah! Que saudades!
Noites quentes, na
Calada da madrugada.
Agora é assim,
Sem luz, sem paixão.
Tempos que foram,
Agora, desilusão.
FOLHAS AO VENTO...
O vento vai passando,
E a todos tocando
E assim conseguindo levar
Pedaços de uma vida...
Eta vento pirilampo!
Que quando foi passando
Conseguiu arrancar aquela folha
Que lutava por mais um dia!
Já meio amarelada
No meio daquele galho seco
Tentava reunir forças
Da pouca seiva que a nutria.
E em meio a rajadas de vento
No bailar do movimento
Sentiu quando a água a abraçou
Na poça que a acolhia.
Assim viveu mais um dia
E pôde compartilhar da alegria
De sentir o pousar de outras folhas
Naquelas águas cristalinas.
Assim não se sentiu mais sozinha
Podendo gozar da companhia
De outras folhas arrancadas
Pelas forças do vento...
PERSPECTIVA DE VIDA (MUSICALIDADE)
No mundo subterrâneo
Da minha consciência
Relembro os meus sonhos.
Penso.
São sonhos da infância
Sonhos da adolescência
Sonhos que há tempos sonho.
Vejo.
Será que os realizarei?
Será que os concluirei?
Ou nunca passarão de sonhos?
Sinto.
Vontade de ser feliz,
Vontade de conseguir
Realizar o meu grande
Sonho.
POEMA ENGASGADO
As palavras não saem
A rima não combina
Pensamentos se mesclam
A frase não termina.
Confusão mental
Poema inacabado
As idéias não fluem
Momento inadequado.
Tudo cai no vazio
Sem cerne, sem sustância
Amnésia criativa
Sem gomo, sem concordância.
Em meio ao pesadelo
O papel fica sem vida
Engasgado está o poema
Sem data definida.
POESIAS
A poesia é o grito
De liberdade do poeta.
É através dela que ele se exprime
É através dela que ele se liberta.
É na poesia que o poeta
Faz suas confissões, conta seus segredos:
Seus sonhos; suas ilusões,
Os seus mais íntimos desejos.
E é através das poesias
Que o mundo consegue ter acesso
A um mundo cheio de fantasias
À imaginação de um poeta.
É nessas pequenas estrofes,
Nessas combinações de palavras,
Nessas frases, nessas rimas,
Em que a poesia está formada.
São nessas belas frases
Em que o poeta se expressa
Que o mundo se emociona e descobre
O secreto mundo em que vive o poeta.
POESIAS, PRA QUE SERVEM?
Poesias, pra que servem?
Para se ler, para entreter
Para emocionar, para mexer
E comover o seu coração...
Poesias, para que servem?
Para se ler e escrever
Para sonhar e despertar
Incentivar sua imaginação...
Poesias, para que servem?
Para tocar e para marcar
Para se abrir e desabafar
Para despertar uma emoção?
Poesias, para que servem?
Para iludir e magoar
Para fantasiar e enganar
Fazer de bobo o cidadão?!
Poesias, para que servem?
Para rimar e enriquecer
Para detalhar e demonstrar
O quanto é bela a reflexão.
Cirurgiã-dentista por opção, poeta por vocação, assim se define Karina Aldrighis. Formada em Odontologia pela Universidade de Taubaté (Unitau) e pós-graduada em Saúde da Família também pela Universidade de Taubaté (Unitau), Karina P. Issamoto nasceu em Taubaté-SP e começou a escrever poesias aos 12 (doze) anos de idade. Quando estudante, ao ler poemas de Cecília Meireles apaixonou-se pela poesia, e decidiu dedicar-se a ela.
Escreve poesias, contos, crônicas e participa de Antologias, Revistas Literárias e Concursos de Poesia, da qual teve alguns poemas premiados. Administra os blogs Caderno de Poesias e Ninho de Borboletas e divulga seus escritos pelo site pessoal www.karinaaldrighis.com e outros sites literários na internet. Em 2011, lança seu primeiro livro de poesias, Ninho de Borboletas, com 30 (trinta) poemas infantis, pela Paco Editorial.
domingo, 3 de julho de 2011
YAYÁ PORTUGAL
CONJUGAÇÃO À PARTE
Separa na dor, a razão;
Repara teu ser, emoção;
Esquece o destino, prossegue
Qual água da chuva que vai.
Sê forte, atura a missão
Que a terra pertence o teu chão.
Plantar com fervor enobrece.
Almeja o fruto, que és pai.
Prepara a semente, menção
Do sol reluzente à ação;
Fortalece, não esmorece,
Da graça da lida te faz.
Pondera à vontade a visão
Cruel do teu mundo, obsessão
À parte de ti. Apetece,
Da sorte o teu feito te sai.
LATINO - O ELO ENCONTRADO
Precisava de um guerreiro
Bem disposto. Planejava
Com Lavínia no terreiro
Um destino que almejava:
Conquistar o mundo inteiro.
Vem Eneas aventureiro
Precisando de uma clava,
Um apoio uno e derradeiro,
Porque a Grécia não deixava
Terminar o seu tinteiro.
Muitas lutas no seu meio,
Sofrimento que alijava
A subir um mar inteiro
E encontrar a sua tábua,
O seu remo, o seu roteiro.
Com Lavínia, tudo feito;
A donzela que aceitava
O papel casamenteiro,
A mulher que se enfeitava
Num contexto bem brejeiro.
D’uma união nasceu um herdeiro
O seu nome, Iulo, visava
Um futuro alvissareiro;
Alba Longa planejada,
De um eterno sobranceiro.
CALMARIA
Noite calma, calmo o vento;
Dorme o mar imorredouro,
Vela o sono o firmamento.
Some a nuvem com o vento,
Desce a terra sem estouro;
Gira a vaga e o cata-vento.
Cada feito tem seu tempo
Cada flor, o seu tesouro.
DESCRENÇA
Perdi o eclipse lunar,
Não vi a lua encoberta;
A cheia atrai o meu sonhar.
Fechei a tela e o solar,
Liguei o som que desperta,
Livrei o sol de um azar.
Não creio em bruxa a avisar,
Não creio em sorte de estrela;
Não saí desse lugar.
IRONIA
Jegue pacato, fiel e distinto,
Segue o seu arreio na lida avaliada
De aço puxado ao passo seguido;
Sina de ensino à pelo no instinto.
Manso cordeiro de alma vestido
Segue o pastor em busca da malha
Fresca ao calor do sol estendido;
Despe-se e veste um pobre sofrido.
Pombo-correio, o carteiro auferido,
O anjo esquecido ao céu se dispara
Na ânsia da entrega ao tempo pedido;
Cumpre o papel na data marcada.
Bicho fez-se homem, barro fundido,
Osso e costela, sobra da escala
De ânimo próprio, de único tino.
Sonho de luz, que esparja a palavra!
GRAÇA
A prática sugere o caminho
Da lavra, ser que segue a montanha
Perdido num aviso vazio
De setas na pegada tamanha.
Resvala numa ponte de alinho
Por sorte inesperada à façanha,
No modo desejado ao divino
Pinçado, um escolhido na manha.
A ação imune ilumina esse tíbio
De ideias desarrumadas à lama,
Descaso na dureza do sino
Batido e calejado na tampa.
A ponte se partiu num arrimo
E o que era não foi mais a montanha,
Foi arcada e proteção, no carinho
Do abraço, a salvação dessa apanha.
INGENUIDADE
O moço do amendoim
Avisa que a fornada
Está chegando ao fim
Aos ares da animada.
A malta foi mesclada
Nas voltas do carmim,
De versos encantada,
Que iludem a ti e a mim.
Passou suave esse ínterim
E foi-se o trem na esteada;
Na turba do alecrim
Não sobra um na passada.
Os fogos de festim
Enfeitam a encerrada
De luzes ao jardim
Na chuva iluminada.
MATANDO A SAUDADE
Os velhos nas praças,
Nos bancos sentados,
Relembram pirraças.
Cavalos montados,
Correios e vidraças
Dos passeios passados.
Precisam das praças,
Dos jovens e dos dados.
Notícias e graças
De vida, contados
Por outros comparsas,
Iguais e abraçados.
Respiram desse ar;
Ao céu enamorados
E, cuidam das garças
Que passam aos lados.
Nos céus engendrados,
Divertem-se amados.
E voltam às casas
Alegres, cansados.
Felizes quais traças
De livros guardados
No fundo das caixas;
Papéis decorados.
Paranaense de Curitiba, poeta, contista e cronista com participação em Antologias. Veicula o Blog www.arteseescritas.blogspot.com . Contato: yaya.curitiba@terra.com.br.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
RITA ELISA SEDA

AMEAÇA
Os corvos voltaram...
porque o milho brotou.
Os corvos voltaram...
porque a fome aumentou.
Mas, eles não sabem,
nem imaginam...
Agora o espantalho
sabe atirar!
CAMUFLAGEM
para minha mãe
Untada de citronela
Vagueio pela mata,
O ar puro
Me dá vertigem.
O som dos pássaros
Penetra meu silêncio.
O vento nas folhas
Sacode minha memória.
Sou novamente feliz.
Pés descalços, chapéu de palha.
Correr atrás da borboleta azul,
Catar joaninhas,
Cheirar as folhas,
Abrir os braços, penetrar no mistério.
Tornar-me verde, enraizar desejos e
Nas veias -seiva!
TOTEM
O pó anseia pelo gosto das lágrimas,
Os dedos ágeis moldam a argila,
Dão forma ao barro.
O fogo devora a madeira,
A chama vitrifica a obra.
Se é bom, coloca-se à direita,
Se é ruim, coloca-se à esquerda,
O artista comove-se,
Lágrimas ponderam a criação,
Nada vale,
Nada valeu.
Sem o sopro
Não há vida,
Não há nada,
Não há obra,
Reles Mortais.
ANFITRIÃ
para Cora
No meu jazigo
Há um jardim secreto
Que nasce das raízes
Dos ossos porosos,
Dos cabelos crescidos
E das unhas brancas.
Ali tudo é possível.
Encontram-se
Pretos e brancos.
Pobres e ricos,
Felizes e infelizes.
Ali encontra-se a certeza.
Na lápide verde formada
-rastros de Perséfone-
Coralina da vida,
Poetizando mistérios.
AS MÃES DA PRAÇA DE MAIO
Há muitas décadas
na praça de Maio elas marcham
Mostrando suas dores.
Ali também choram Marias e "Clarissas"
No solo argentino.
As Mães da praça de Maio.
Quinta-feira,
O silêncio ecoa no murmúrio
Dos passos.
A lembrança dos filhos amados.
As Mães da praça de Maio.
Na mortalha dos pensamentos,
A fralda do amor jamais esquecido,
E jamais encontrado.
Choram...
Choram na praça de Maio.
ROÇA
O besouro voa até o bambuzinho,
A folha, intrépida, balança boas-vindas,
A borboleta vermelha suga a vida do agapanto,
O marimbondo-cavalo sacia-se numa pitanga.
No pasto,
O boi revira a grama
Seguido pela garça.
O beija-flor penetra o lírio selvagem,
Pousa na pereira e esgrima o bico no
galho.
No pasto,
A garça segue o boi e
O boi revira a grama.
Os cães ladram, mas a charrete passa.
O tucano se esconde na mangueira
E deixa o bico à mostra.
A abelha desnorteia meus pensamentos.
No pasto,
A garça-boi revira a grama
Mas não voa.
O cheiro ácido de uvaia pisada
Desperta meu paladar,
No primeiro instante -lanterninhas amarelas
Depois, o caroço cuspido, e
O néctar para a digestão.
Isto é vida,
Isto é roça,
Recanto de Minas.
MIRAGEM
Rasgaram o céu
e canalizaram
o azul
numa sinuosa vala.
Há bençãos acumuladas
captadas no horizonte.
O céu tocou a terra.
A terra acolheu o céu.
Esta é a hora
este é o dia,
navegar no azul.
FORTALEZA
para as Anas
Cheguei e já te conhecia,
Provei-te sabor requintado,
Deslumbrei-te verdes olhares,
Escutei-te pássaros coloridos,
E amei-te terra bendita.
Teu céu é mais azul,
E teu arco-íris noturno,
Prevê um dia de chuva.
Tua água cristalina
Incrusta pequenos tesouros.
Desvendei-te alguns mistérios,
Ruínas de Ouro-Fino,
Capela de S. João Batista,
E a encantadora Serra Dourada.
Descobri num belo sorriso
Que as forças de Goiás
Chamam-se Anas.
Escritora e fotógrafa, Rita Elisa é autora de Raízes de Aninha (com Clóvis Carvalho Britto, biografia de Cora Coralina), A Menina dos Vaga-Lumes (com Sônia Gabriel, biografia de Eugênia Sereno) e Retalhos de Outono (de onde foram extraídos os poemas acima), entre outros. Integra a REBRA, UBE e AVLA - Academia Valeparaibana de Letras e Artes, que ajudou a fundar. Membro da Academia Joseense de Letras, escreve em diversos jornais e sites. Contato: http://palavrasdeseda.blogspot.com .
domingo, 22 de maio de 2011
ISABEL FURINI
UMA TATUAGEM
Uma tatuagem é desdobramento do instinto em imagens,
orbe de conceitos
chicoteados em flor, ou âncora, ou astro (caos de imagens)
silêncio angustiante e selvagem cinzelado no corpo.
Uma tatuagem é labirinto de conceitos
(metálicos),
gravura de emoções desafiando a impermanencia
e os preconceitos,
áspera formiga desfiando um a crosta de um relógio vermelho
(no quadro de Dalí).
E, às vezes, às vezes, uma tatuagem
é como a fita de Moebius,
arco do tempo,
voz metafísica do universo
imprimindo o sonhos na epiderme do eu.
Uma tatuagem é desdobramento do instinto em imagens,
orbe de conceitos
chicoteados em flor, ou âncora, ou astro (caos de imagens)
silêncio angustiante e selvagem cinzelado no corpo.
Uma tatuagem é labirinto de conceitos
(metálicos),
gravura de emoções desafiando a impermanencia
e os preconceitos,
áspera formiga desfiando um a crosta de um relógio vermelho
(no quadro de Dalí).
E, às vezes, às vezes, uma tatuagem
é como a fita de Moebius,
arco do tempo,
voz metafísica do universo
imprimindo o sonhos na epiderme do eu.
CAMPO DE TRIGO DE VAN GOGH (1890)
Corvos ferinos, mímicos ferinos,
sombras da genialidade,
murmúrio de rios subterrâneos,
canal das águas do inconsciente,
campo de trigo com negros corvos
moendo as tenebrosas horas.
O vento sussurra entre os ouvidos e a tela
- quase um ulular de morte.
Corvos ferinos, mímicos ferinos,
sombras da genialidade,
murmúrio de rios subterrâneos,
canal das águas do inconsciente,
campo de trigo com negros corvos
moendo as tenebrosas horas.
O vento sussurra entre os ouvidos e a tela
- quase um ulular de morte.
A NOITE DE PEDRO PÁRAMO
Silencia o trovão amordaçado pelo árido deserto,
a noite macilenta
aprisionada pelas violentas gárgulas do rancor, arqueja.
Noite que alimenta sombras, matriz de espectros
que deambulam pela árida terra dos mortos.
Noite fantasiada de carranca de proa
naufraga em angustiados alfabetos.
(O abismal relato de Juan Rulfo penetra nos ouvidos
e na alma,
enquanto falanges descarnadas escavam lembranças.)
Nada se mexe no horizonte.
Nada se mexe nessa noite sem estrelas.
Noite de meninos mortos
enterrados em caixões brancos com arabescos.
Noite desabitada – sem esperanças, morta,
quase um contorno de casas em penumbra,
as portas uivam e quebram lúgubres sombras.
Sucumbe, verticalmente, a noite e impulsiona o vento
que arremete contra esse povoado poeirento e olvidado,
trancado entre paredes de espectros e de traumas.
Pedro Páramo espreita nossos passos
com seus olhos cruéis
transforma-nos em moinhos de pedra
e ficamos como estatuas avassaladas, inertes,
no árido deserto de Comala.
Silencia o trovão amordaçado pelo árido deserto,
a noite macilenta
aprisionada pelas violentas gárgulas do rancor, arqueja.
Noite que alimenta sombras, matriz de espectros
que deambulam pela árida terra dos mortos.
Noite fantasiada de carranca de proa
naufraga em angustiados alfabetos.
(O abismal relato de Juan Rulfo penetra nos ouvidos
e na alma,
enquanto falanges descarnadas escavam lembranças.)
Nada se mexe no horizonte.
Nada se mexe nessa noite sem estrelas.
Noite de meninos mortos
enterrados em caixões brancos com arabescos.
Noite desabitada – sem esperanças, morta,
quase um contorno de casas em penumbra,
as portas uivam e quebram lúgubres sombras.
Sucumbe, verticalmente, a noite e impulsiona o vento
que arremete contra esse povoado poeirento e olvidado,
trancado entre paredes de espectros e de traumas.
Pedro Páramo espreita nossos passos
com seus olhos cruéis
transforma-nos em moinhos de pedra
e ficamos como estatuas avassaladas, inertes,
no árido deserto de Comala.
VIVÊNCIAS
Dedicado ao poeta Claudio Daniel.
Ele escreve poemas a partir de mantras.
(Om Lakshmi pataye namaha)
Palavras serpenteiam no vento entre ondas e incenso.
Sabores naufragam
no prisma da memória.
Nada escurece as lembranças de experiências
(antigas e futuras),
torrentes de emoções acordam
(e dançam),
clareia a noite cinzelada em rochas de palavras
(mantras)
clandestinos afetos invadem o castelo da alma
e a deusa dança sua dança
(infinita).
Om Lakshmi pataye namaha.
TULIPAS
Lateja a vida nos meteoros das cores e das formas.
A artista multiplica tulipas
no universo da tela,
e as flores alegram as retinas.
VAN GOGH
Ulula o chicote do tempo no vulcão das horas,
e no local absurdo,
tétrico, do porão da mente,
o brilho dos quadros
cinzela as noites de insônia.
Enquanto emoções disputam espaços,
a orelha - banida do tempo -impulsiona-se
para a eternidade.
ISABEL FLORINDA FURINI, escritora, palestrante, poeta premiada e educadora. Assina a coluna “Livros de negócios” do Jornal Indústria&Comércio de Curitiba. Mantém o blog Falando de Literatura no Bondenews (http://www.bonde.com.br/bonde.php?id_bonde=1-31-3&oper=quem). Escreve a coluna “Falando de Literatura” na revista ZK 2.0 da Espanha.
Já publicou 20 livros, entre eles: Arte de Falar em Público, Ele e outros contos, O Livro do Escritor, Oratória Forense.Em 2007, redigiu o livro: SENAC Paraná, 60 Anos.
Contato: isabelfurini@hotmail.com
Já publicou 20 livros, entre eles: Arte de Falar em Público, Ele e outros contos, O Livro do Escritor, Oratória Forense.Em 2007, redigiu o livro: SENAC Paraná, 60 Anos.
Contato: isabelfurini@hotmail.com
domingo, 24 de abril de 2011
LUNA FERNANDES

REENCONTRO
Eu me afastei de mim, de tudo o que eu queria
-as minhas ambições, meus sonhos e ideais...
E sem sentir, decerto eu me afastei demais
desse mundo de paz e amor em que eu vivia.
E arrastado que fui por tantos vendavais,
eu me perdi de mim... E quando enfim, um dia,
eu tentei me encontrar, senti que não podia
pois os rumos de volta eu não sabia mais...
E segui, sendo alguém que seguia, não eu...
Até que um dia achei, entre as rimas, o abrigo
que eu há tanto buscava e tão bem me acolheu...
E aos poucos devolveu-me esse convívio amigo
com tudo o que eu perdera e voltava a ser meu...
E eu me encontrei, então, novamente comigo...
BRISA E VENDAVAL
No início era uma brisa, a deslizar de leve
e a carregar consigo o aroma dos rosais...
Passava sem fazer ruído nos beirais,
sem arrastar a areia ou derrocar a neve...
Depois tornou-se vento, aligeirou-se mais...
Já não passava assim -silencioso e breve...
Passou a ter um ar de quem ousa e se atreve
a chamar atenção e assustar os mortais...
Foi ficando mais forte, ameaçante e rude...
E hoje deixa antever, no porte e na atitude,
tudo o que pode ser e causar, ao final...
Pois não queira ir além de onde deve e precisa:
é melhor retornar à condição de brisa
que prosseguir e ser, um dia, um vendaval!...
NÃO MALDIGAS...
Não maldigas o amor do teu passado
nem maldigas a dor que já sentiste,
seja, embora, este amor que te fez triste...
Seja esta dor que tenha te marcado...
Não maldigas quem quer que, dedo em riste,
possa ter, muitas vezes, te humilhado...
Nem maldigas, por ter desmoronado,
o castelo de sonhos que erigiste...
E ao te invadir a mente, distraída,
qualquer recordação te desconforte,
de algum mamor desfeito ou dor sentida,
não a maldigas, pois, de alguma sorte,
foi, quem sabe, esse amor que te deu vida!...
Foi essa dor, talvez, que te fez forte!...
A GRANDE INCERTEZA
O que existe, afinal, depois da vida?
O céu?... O purgatório?... O inferno?... O nada?...
Uma outra vida, longa e atribulada
como essa que acabou de ser vivida?...
E o que é dado levar, na retirada?...
A semente plantada?... A flor colhida?...
A chama da paixão interrompida?...
A pauta da canção inacabada?...
Para onde... E por que... E como... E quando...
Vivemos, há milênios, perguntando
e ninguém nos responde com clareza...
Tolos e sábios, crédulos e ateus,
por mais que se confie e creia em Deus,
todos temos, no fundo, esta incerteza!...
ROSA PÓSTUMA
Sozinho a caminhar, descalço e maltrapilho,
um menino percorre a fatigante estrada...
Um menino sem lar, sem família, sem nada:
ninguém sabe quem é nem de quem é filho...
Apeesar da feição contraída e cansada,
não detém a passada o pequeno andarilho...
E a seguir, como um trem a seguir sobre o trilho,
vai cumprindo, a rigor, toda a meta traçada...
Uma rosa na mão... uma rosa colhhida
numa praça, talvez... E a expressão decidida
de quem sabe que vai, aonde vai e porque...
Passa o grande portão... Segue a aléia vazia...
E em frente à campa rasa, estanca e balbucia:
- Esta rosa, Mamãe, eu trouxe pra você!...
Eu me afastei de mim, de tudo o que eu queria
-as minhas ambições, meus sonhos e ideais...
E sem sentir, decerto eu me afastei demais
desse mundo de paz e amor em que eu vivia.
E arrastado que fui por tantos vendavais,
eu me perdi de mim... E quando enfim, um dia,
eu tentei me encontrar, senti que não podia
pois os rumos de volta eu não sabia mais...
E segui, sendo alguém que seguia, não eu...
Até que um dia achei, entre as rimas, o abrigo
que eu há tanto buscava e tão bem me acolheu...
E aos poucos devolveu-me esse convívio amigo
com tudo o que eu perdera e voltava a ser meu...
E eu me encontrei, então, novamente comigo...
BRISA E VENDAVAL
No início era uma brisa, a deslizar de leve
e a carregar consigo o aroma dos rosais...
Passava sem fazer ruído nos beirais,
sem arrastar a areia ou derrocar a neve...
Depois tornou-se vento, aligeirou-se mais...
Já não passava assim -silencioso e breve...
Passou a ter um ar de quem ousa e se atreve
a chamar atenção e assustar os mortais...
Foi ficando mais forte, ameaçante e rude...
E hoje deixa antever, no porte e na atitude,
tudo o que pode ser e causar, ao final...
Pois não queira ir além de onde deve e precisa:
é melhor retornar à condição de brisa
que prosseguir e ser, um dia, um vendaval!...
NÃO MALDIGAS...
Não maldigas o amor do teu passado
nem maldigas a dor que já sentiste,
seja, embora, este amor que te fez triste...
Seja esta dor que tenha te marcado...
Não maldigas quem quer que, dedo em riste,
possa ter, muitas vezes, te humilhado...
Nem maldigas, por ter desmoronado,
o castelo de sonhos que erigiste...
E ao te invadir a mente, distraída,
qualquer recordação te desconforte,
de algum mamor desfeito ou dor sentida,
não a maldigas, pois, de alguma sorte,
foi, quem sabe, esse amor que te deu vida!...
Foi essa dor, talvez, que te fez forte!...
A GRANDE INCERTEZA
O que existe, afinal, depois da vida?
O céu?... O purgatório?... O inferno?... O nada?...
Uma outra vida, longa e atribulada
como essa que acabou de ser vivida?...
E o que é dado levar, na retirada?...
A semente plantada?... A flor colhida?...
A chama da paixão interrompida?...
A pauta da canção inacabada?...
Para onde... E por que... E como... E quando...
Vivemos, há milênios, perguntando
e ninguém nos responde com clareza...
Tolos e sábios, crédulos e ateus,
por mais que se confie e creia em Deus,
todos temos, no fundo, esta incerteza!...
ROSA PÓSTUMA
Sozinho a caminhar, descalço e maltrapilho,
um menino percorre a fatigante estrada...
Um menino sem lar, sem família, sem nada:
ninguém sabe quem é nem de quem é filho...
Apeesar da feição contraída e cansada,
não detém a passada o pequeno andarilho...
E a seguir, como um trem a seguir sobre o trilho,
vai cumprindo, a rigor, toda a meta traçada...
Uma rosa na mão... uma rosa colhhida
numa praça, talvez... E a expressão decidida
de quem sabe que vai, aonde vai e porque...
Passa o grande portão... Segue a aléia vazia...
E em frente à campa rasa, estanca e balbucia:
- Esta rosa, Mamãe, eu trouxe pra você!...
Luna Fernandes é brasileiro, carioca, casado, empresário, pós-graduado em Gestão Empresarial. Mais de cento e cinqüenta prêmios literários conquistados em todo o Brasil e em Portugal, em todos os gêneros – romance (dois romances premiados), contos, crônicas, poesias e trovas (detentor do título "Magnífico Trovador", outorgado pela UBT – União Brasileira de Trovadores). Participação em mais de cinqüenta antologias e coletâneas, com vários trabalhos traduzidos para outros idiomas (espanhol, italiano e esperanto). Três livros editados: Primícias (poesias, de onde foram extraídos os sonetos acima), Gurugumba (romance) e O Mundo do Curió (contos). Contato com o autor: lunafernandes@mundivox.com.br
domingo, 3 de abril de 2011
ABÍLIO PACHECO
ELEGIA DE MARIA
Maria deitada na cama
na lida profana da noite
na noite soturna do quarto
olha as horas paradas
e espera o brilho das horas
e espera o sol de amanhã.
No corpo frágil o sustento
fértil odor de hortelã,
nos beijos, pancadas na cara
gemidos, carícias e dor;
estranhos estames fincados
(vibrante delírio frenético)
grãos de pólen gozados,
nas entranhas - carne em flor.
Depois de tanto sofrer
no martírio noturno,
o vírus maldito da morte
lhe leva a um longo suplício
na solidão do seu quarto,
na solidão da espera.
Maria velha é levada
ao fim dos dias tão cedo.
Não existe mais sonho.
Não existe mais quimera.
Não existe mais fantasia.
Não existe mais... Maria.
HABITAÇÃO
Há um silêncio seco percorrendo as paredes da casa:
Ratos roem roupas sujas esquecidas nos sofás,
fazem seus ninhos entre os nossos tecidos
e mijam nas louças adormecidas sobre a pia;
Baratas revoam sobre a mesa da sala
são insetos burocráticos, bibliófilos, alfarrábicos
que se fartam nos papéis, cartas, revistas e jornais
que há dias estão reunidos na mesa de jantar;
Grilos entoam acordes de árias desafinadas
e muriçocas lhes riem finos gargalhos;
Formigas carregam as migalhas da última ceia
da ceia de ontem, da ceia de sempre;
Uma única mariposa tenta a morte em vão na luz da sala;
E aranhas ressecadas nos telhados podres
permanecem estáticas à teia urdida
Enquanto os gatos, os cães
e os homens estão perdidos pelo mundo.
HORAS PASSADAS
À minha mãe Maria Cordeiro
Eu andava sozinho
nos jardins da minha memória
tentando sentir o perfume
das flores murchas no tempo.
Havia uma ironia colorida
nas folhas espalhadas pelo chão
e uma tristeza profunda
onde antes havia uma rosa.
Hoje... nenhuma abelha me traz
as flores murchas do tempo,
horas que não voltam mais.
NEREIDA EM SALINAS
À nereida Deurilene Sousa
... seguro tua mã e contigo navego
(corpo velido) pelas alvíssimas
planuras ondulantes dos lençóis
de areia da enseada
do quarto do chalé
pelos vagas: ondas suaves,
sussurros de sereia,
corais em solo e em si bemol!
Deixemo-nos levar por este canto navegante
e nenhum arrecife nos há de avariar a nave.
TESSITURA NOTURNA
A João Cabral de Melo Neto
Um latido apenas
não protege a rua
ele precisará sempre
que os cães o apanhem
e o lancem a outros cães
e a outros latidos
tal que somados todos
(latidos e cães) na noite
formem (no arca-
bouço da matilha)
uma redoma protetora
em torno da rua.
NO PRELO
Se a minha palavra é a minha busca
de uma vida inteira, em todo mundo
e ela dorme encantada à sombra
de um livro raro, quiçá
encontrá-la-ei num alfarrábio,
num sebo, numa biblioteca pública...
Quem sabe minha resposta ainda
esteja no prelo.
OCASO
Um pássaro sob o sol da tarde:
Um dia, ave liberta em nuvens
colorindo o brilho silente:
Hoje, um olhar tímido entre grades
e um desejo pulsando no peito.
Mas o peito vai se apertando
contra o vazio do ventre
e o passarinho triste
sob o sol da tarde a pino
entre fortes grades definha.
Então,
ao som dos raios solertes
a ave liberta em vôo
bate as asas da alma
pelo azul do infinito...
Abilio Pacheco é baiano de Juazeiro, e vive no Pará deste os sete anos. Coordena o Curso de Letras no Centro Federal de Educação Tecnológica do Pará. Publicou "Poemia"e "Mosaico Primevo", de onde foram extraídos os textos acima. Fundou a Editora Literacidade, onde promove o surgimento de novos talentos da Literatura Brasileira. Contatos: editoraliteracidade@uol.com.br .
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