domingo, 10 de maio de 2015

MARIA LÚCIA LÓPEZ




HABITEI NO TEU ESPAÇO

Desbravei os teus abismos
Escalei teus precipícios
Desvendei os teoisus mistérios
Percorri tuas florestas
Adentrei em tuas frestas
Te seduzi...
E te alcancei sem mistérios
Derrubei o teu império
Abri clareiras gigantes
E tuas veredas secretas
Percorri...
Desbravadora incansável
Sem vacilar um só instante
Te convenci...
Me banhei no teu regaço
Habitei no teu espaço
Te possuí...
Adormeci radiante e tive sonhos
Vibrantes...
Me aqueci em teus braços
Ouvi os teus desabafos
Me convenci, e te amei,
E te senti...


CIGARRAS AZUIS

Quando nas colinas verdejantes brotassem os girassóis silvestres e as andorinhas cantassem canções de pura emoção, o sabiá laranjeira trocasse a gaiola pelo teu coração,

Quando a brisa tocasse sinfonias e embalar o mar, eu, vestida de ventania, perceberia que são azuis as cigarras.


EIS-ME MULHER

Vestidos de luz, pássaros azuis, bonecos de argila,cigarras vadias, moram na minha cabeça.

Trago no peito vendavais de paixões, seduções e carinhos desfeitos.

Vinda das matas, cultivo a crença nos mitos, lendas e fadas.

Pra onde foi minha irmã coragem, que me levava além, numa carroça cansada onde bois sonolentos se arrastavam no chão, cuja carroça gemia, rangia, no compasso do meu coração?


VERDE

Teu verde olhar
Mesmo no mar
A toda hora incendeia
Com a claridade
Da lua cheia
Sobre o verde do mar
Necessito da tua paz
Que me alimenta.


INQUIETAÇÃO

Inquietas flores tremulam ao vento presenciando situações
Suspeitas.
Na ondulação suave de prepotentes ondas
A ordem é avançar e se quebrar nas areias.
Inquietas mãos afagam pernas, coxas, ventre e um busto
Nu exposto.
E a menina que viu, sorriu...


CAMPOS DO JORDÃO

Busco horizontes.
Deparo-me com as sinuosas curvas
Da Serra da Mantiqueira.
Sinto-as entre bocejos de preguiça
Arrematando os sinuosos traços verde-musgo, de azul celeste.
Cavalgo no lombo da Serra.
Nas encostas sou erva rasteira.
Nos ares da Serra sou corvo ouriçado.
Nas noites da Serra sou eixo de lendas e mitos...
Sou pedra lavada, nos cantos perdidos,
Jamais desbravados.
Nas noites da Serra, sou a vigília que vela o teu sono.



Maria Lucia Lopez nasceu em Catende, Pernambuco, em 1941. É autora de 8 livros de poesia. Um deles, “Acendedora de Estrelas”, rendeu-lhe um convite para participar de uma coletânea de poetas brasileiros na Croácia, onde aparece ao lado de nomes como Mario Quintana, Joao Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e do entao presidente Jose Sarney , entre outros. Membro da Academia de Letras de Campos do Jordão e da Academia de Letras de Professores, ainda é artista plástica, produzindo obras em óleo e aquarelas. Os poemas acima fazem parte do livro ‘Paulicéia Desvairada’, publicado em conjunto com Mirian Warttusch (Beco dos Poetas e Escritores, 2014). 
Contatos: estrelopez@hotmail.com

sábado, 27 de dezembro de 2014

WILDMAN DOS SANTOS CESTARI



BRINCANTE

Pé pra cá
Mão pra diante
Um sorriso alargado
Como vôo rasante
Imerso na fantasia:

Da ilusão que se irradia
De se abanar da cara a melancolia
Da tinta do pó do feroz dia

Porque se quer brincante

Oh, Bumba!

Maior alegria

-universo-

Poesia.


O MEU FALAR NORDESTINO

Meu falar nada grã-fino
Tampouco simpatizante,
Pra uns; pra outros, elegante.
Com isto não me azucrino
Nem me faço de arrogante.
Meu falar bom –puro hino,
De alguém que fala cortante
Engolindo consoante.
Um que de falar sorrindo
Como quem fala cantante
Do destemido destino
De ser alma retirante.
Povo que, de sol a pino,
Faz-se de forte o bastante
Por ser nato nordestino:
Que vida árdua, inconstante!


CANTIGA DE RETIRANTE

Não se pode ser feliz
Tendo tristeza no olhar;
Se, aqui, bem nenhum me quis,
Já não posso mais tardar!

Só a ausência é companheira
De quem deixa seu lugar;
O sonho, uma vida inteira,
Noutros campos cultivar.

Lá, para além dos monteiros,
É que vejo o sol brilhar;
Minha flor noutros canteiros,
Prenda minha, hei de achar!


QUINTILHA

Por pensar no meu amor,
De tão cálida e cheia,
Tão má se fez minha dor:
Brava onda que mareia
A minguar o meu fervor.


PESCADORES

Seguem lua que vagueia,
Bravas almas, pescadores;
Da rasante à maré cheia
Por pensar nos seus amores.

Sonham suas as sereias
Sob encanto de licores;
Jogam ao mar suas teias
Por querê-las, pescadores.

Logo a razão lhes golpeia
Borbulhada por temores:
- Foi-lhes sempre a vida alheia
Aos seus sonhos, pescadores?


CANÇÃO DOS QUE JÁ SE FORAM
À Serra da Mantiqueira

Quando pouso o olhar sobre o azul da imensa serra...
Ouço a canção vinda pelo caminho,
O caminho que é de toda a gente
Num tiririm sonoro de sininhos...
Vindas pelas fileiras dos caminhos,
Turificadas sombras dos que já se foram...
Deixam pegadas em desalinhos
Como marcas de lágrimas de antigos choros...
A cantilena monótona se espargindo
Num ritmado coro ressoado pelo vento,
Vem, em ondas telepáticas, emitindo:
-O sonho é uma nevoa assoprada pelo tempo
Que a tudo tão mansamente degenera,
Mas a morte é um não-tempo, é um espaço
Para a esperança cansada de espera
Para a esperança cansada de espera
Para a esperança cansada de espera...
Quando pouso o olhar sobre o azul da imensa serra...
Tudo, num instante, finalmente se reverbera
Que a vida é um sonho que se desfaz em névoa
E a morte é um sopro para o fim angustiante de
Dilacerantes quimeras.




Baiano de Salvador e criado no interior da Bahia (Jaguaquara), graduou-se em Letras com especialização em Literatura. Ativo personagem da poesia brasileira, atualmente radicado no Vale do Paraíba, estreou em livro em 2012, com “Efígies”. Os poemas acima fazem parte de ‘Belão Belão Blãblão – Canções e Poemas (Nomadismo Poético)’, publicado em 2013 pela Virtual Books. Membro da União Brasileira de Escritores (UBE) e União Brasileira de Trovadores (UBT).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

IRENE COIMBRA



NÃO OS AFUGENTEM DE MIM...

Deixem-me sozinha
Com meus pensamentos.
Por favor, não os afugentem de mim.

Deixem que falem comigo.
Preciso ouvi-los...
Não os afugentem de mim...

Se eles se afastarem agora,
Tão cedo não virão novamente.
Não os afugentem de mim...

Sinto que estão inquietos,
E querem falar comigo.
Este é o momento ideal!

Deixem-me aqui sozinha com eles, por favor.
Não os afugentem de mim...


ESSA TRISTEZA HÁ DE PASSAR...

Essa tristeza
Que chegou de repente
Tal qual uma enchente
Há de passar também.
E mesmo que arraste
Meus sonhos com ela,
Hei de encontrá-los,
Ainda que despedaçados,
Em qualquer lugar jogados
E trazê-los de volta a mim.


ENFADO...

Estou cansada
De tanta teoria
Que fala sobre a poesia.

Decidi não ler mais nada
Que ensine a escrever.

Vou deixar minha mão solta
Sobre o teclado
E mesmo que escreva errado
Não a punirei.

Afinal, por que tanta poesia
Se não vive dela a Poesia?


AUSÊNCIA DA POESIA

Eu que vivia
Em constante ebulição,
De repente me vejo
Em completa inanição.

Começo a me questionar
O que foi que aconteceu,
Pra deixar-me assim apática
De todo sonho meu.

De repente eu percebo
Que esta minha apatia,
Tem como única razão
A ausência de poesia.


POEMA FRIO

Um poema
Frio
Vazio
Foi aquele
Que
Não fiz.


O BAILADO DAS FOLHAS

Chuvas de folhas
Caem sempre à mesma hora,
E bailando alegremente
Pelos ares vão embora

E eu sentada aqui
Sempre a observar,
Este bailado das folhas
Não canso de admirar.

Essa árvore frondosa
De sombra tão abrangente,
Todo dia à tardezinha,
Dá esse show pra muita gente.

E eu na primeira fila
Sou a primeira a aplaudir
Esse bailado das folhas
Da árvore sempre a cair.


Natural de Patrocínio Paulista, a professora, poeta, contista, cronista, produtora e apresentadora Irene Coimbra ainda é editora da revista Ponto e Vírgula, além de apresentar o programa de mesmo nome na TVRP, de Ribeirão Preto (SP). Casada com Paulo Cláudio, é mãe de Fernando e Aline e avó do pequeno Raul. Membro da Academia Ribeirãopretana de Educação, é autora dos livros Pedaços de um Diário, Dr Hanamaikai e Outros Contos, Simplesmente Poemas, Meu Diário Meia Sete e Denúncias Poéticas, Contos e Crônicas. Os textos acima fazem parte dos livros Entre Poemas e Poemas de Irene.





domingo, 28 de setembro de 2014

JÚNIOR BALADEIRA



REMANESCENTES

Destruíram minha alma,
Destruíram meu corpo,
Destruíram minha voz
E quase tudo que era meu.

Destruíram meu amor,
Destruíram a verdade,
Esconderam de mim a felicidade,
Quase o mundo feneceu.

Minha bondade foi julgada de pecado,
Meu desejo, tido como tentação,
Meu segredo para o mundo foi gritado,
Sufocaram o meu coração.

Só que todo amargor que o mundo trouxe
Não foi tão grande para não ter solução,
Remanesce em mim o sonho e a esperança,
Certamente esses nunca morrerão.


CAMINHOS

No rosto das pessoas eu vejo a insegurança.
Não temos para onde correr!
Todos têm sonhos e medos.
O que temer?
Um lógico ponto:
Seguir sua vida normal,
Todos vão ao mesmo rumo
Só caminham em uma direção.
É obvio, não enxergo notórios,
Apena robôs,
Destinados a matar sua sede
Na mesma linha de chegada.


A CAUSA OU O PESCOÇO?

Vivendo o dilema de falar verdades,
Sem saber se vivo depois de falar.
Se digo o que penso e o que passa na frente
O tal amanhã não viria a pisar.

Nós somos detentos do nosso sistema,
Omissos nas vozes que temem sair,
Nas letras que temem virar poesia,
Que a verdade venha a nos extinguir.

Tentando deixar tudo claro e escuro,
Falsa maquiagem nos conserva a vida,
Temendo a nossa ficamos calados
Mas nas nossas almas inflama a ferida.

Revolucionários nós somos, em tese,
Vivendo um dilema paradoxal,
Lutar pela causa ou ter o pescoço,
Vamos trafegando entre o bem e o mal.


EU LEVEI UMA PEDRADA

Eu levei uma pedrada
Mas não foi de baladeira,
Era um dia de feira
E a rua estava lotada,
Vi de longe a molecada,
Burra cega, os cabra e eu,
Nesse instante aconteceu
Para que eu jamais esqueça:
A pedra na minha cabeça
Que chega o mel desceu.


TRISTE SECA

Passado o tempo do inverno,
Nascido o triste verão,
Mina a dor no meu Sertão
Mudado de céu pra inferno,
Nasce um desespero eterno
Sonhando a chuva chegar
E ela sempre a demorar
Pra molhar a natureza,
Engrossando  mais a tristeza
Da seca que quer matar.

Meu mundo fica avessado
A mata fica marrom,
Natureza perde o tom,
Até lá, esverdeado,
Chapada perde seu prado,
Rolinha foge e lambú,
O céu fica sempre azul,
Umbuzeiro seca e morre,
Nordestino teme e corre
Pra tentar vida no Sul.

Na cidade pequenina
O emprego fica caro,
Até o feijão é caro
Pra família nordestina,
Nessa escaldante sina
Nasce um meio industrial
Onde a seca é o ideal
Pra fazer sua riqueza,
Esquecendo da beleza
Que tem o povo local.

Fura o poço, faz barreiro
Temendo a chuva chegar,
Mas esquece de implantar
Saída pro meu terreiro,
Só quem ganha é o fazendeiro
Da grande propriedade
Que mora lá na cidade,
Vive vestido de terno,
Só vem aqui no inverno
Desculpe a sinceridade.

Quem só tem uma casinha
Com uma cabra no quintal,
Um jumento no curral,
Pra viver, uma vaquinha,
Coitada, chega é magrinha
Pois não tem o que comer,
A rocinha é seu poder,
Três tarefas é a marcação,
Mas já tá rachado o chão,
Nada nela há pra fazer.

Não tem nem como gritar
Pro mundo sua triste dor,
Só sofrer com o ardor
Que teme em só aumentar,
Vivendo nesse penar
Mostra o  homem ser bem forte,
Nas terras aqui do Norte
Trava o tempo a triste sina,
A morte e vida é Severina,
Luta o povo contra a morte.

Menino pede pro pai:
Por favor, quero morrer,
Não agüento mais sofrer,
A fome já ta demais.
Parece que Satanás
Fez daqui sua morada
Com essa seca desgraçada
Onde o sol teme em ficar,
Rogo e peço pra mudar.
Salve ó Deus a terra amada.

Por favor, chuva querida,
Vem molhar minha esperança.
És a bem aventurança,
A fonte da nossa vida
Que se mostra dividida
Nesse tão triste verão.
Finda agora essa missão
Como um nordestino sofre,
Sem me entregar pra morte
Na seca, mãe do Sertão.



Nelson Pereira de Sá Junior, o Junior Baladeira, pernambucano de Salgueiro e atualmente em Ouricuri, é formado em História. Foi fundador da Companhia de Dança Popular de Ouricuri, do Grupo de Dança Rua do Sertão e do Coletivo Nação Zulu Sertão, entre outros grupos. Desenvolve     pesquisas independentes nas áreas de música, literatura, dança, teatro e cultura popular. Os poemas acima fazem parte do livro "Versos Alados". Contatos: juniorbaladeira@yahoo.com.br .

domingo, 6 de julho de 2014

ADRIANA HARGER




LEMBRANÇAS
De tudo o que vi,
Muito me escapou,
Mas muito,
Muito mais ficou
Resguardado nos confins
Dos velhos tempos,
Relembrado
Nos momentos de prece
E de êxtase da alma.


E NEM SEMPRE HÁ
Se não há força,
E nem sempre há,
Tudo é meramente frágil.

Se não há fé,
E nem sempre há,
Tudo é imensamente vazio.

Se não há vida,
E nem sempre há,
Tudo é frágil,
Tudo é vazio,
Tudo é sem direção.


FANTASMAS DE OUTRORA
Cai a noite.
Surgem das sombras
Os fantasmas de outrora.
Por ora, em frações, em garoa.

Seguirão as tempestades
Com seus monstros insanos,
Incitando o medo,
Instigando gritos de pavor.


Quem sejam nada além de sonhos,
Enganos de corações sôfregos.
Que o peso de tão temíveis pesadelos
Se desfaça assim que rompa a manhã.


PECADOS
Cobicei o mundo
Com olhos errados,

Roubei flores
Que murchavam num dia,

Prendi em gaiola apertada
O pássaro da liberdade,

Sonhei pesadelos
Ao invés de sonhos

E cerrei meus olhos
Para não ver meus erros...


O TEMPO TODO
O tempo todo
Tudo e todos
Mergulham no tempo
E seu efeito,
Sem desfazer
O que já foi feito.
Fazendo,
Refazendo.


NÃO SOU DO MAR
Não sou do mar
Nem nunca fui.
Estive presa, tão presa
Por entre montanhas,
Trancafiada em vales
Longamente murados.
Montanhas da vida,
Montes do pensar,
Picos do destino.

Não sou do mar
Nem nunca fui.
Sempre mergulhei, porém,
Minhas palavras nas ondas,
Criei praias cheias de sol,
Vislumbrei mares sem fim.
Mares de liberdade,
Oceanos de sorrisos,
Águas profundas de sentir.

Não sou do mar
Nem nunca fui.
Mas num salto súbito
Mergulhei do alto das colinas,
Ganhei o céu num vôo sublime,
Encontrei o mar num abraço intenso,
Beijei as ondas com um beijo terno,
Viajei pelas entranhas das águas
E me fiz livre, tal qual o mar.



Professora e poeta, Adriana Harger (de Campos do Jordão) participa ativamente das ações culturais de sua Cidade, e vem sendo premiada com freqüência em concursos literários no Brasil. Os textos acima fazem parte de “Poesia no Tempo”, seu livro de estréia, com previsão de lançamento para o mês de agosto/2014.

sábado, 21 de junho de 2014

COSME CUSTÓDIO




PROCURA

Para te encontrar
Escalo teus andares
De formas circulares
De raros exemplares

Irei a todos os lugares
Por rios ou mares
Por terra ou ares
Cafés e bares
Boliches e bilhares
Sebos e bazares
Igrejas e lupanares

És jóia sem pares
Gestos tão vulgares
Lábios carnudares
Seios sem siliconares
Ancas rebolares

Pedirei ajuda de militares
Embaixadas e consulares
Apoio de familiares
Gratificarei a quem achares

Volta, Stella Maris!


ESCORRÊNCIA

O amor está nítido
Na menina dos olhos teus
Que se derrama cristalino
E aquoso
Inundando o coração
E por não suportá-lo
Às costas
Abre suas comportas de néctar
Que hidrata o corpo
Entorpecendo-o
Juntando-se ao âmbar
Do triângulo invertido
Lacriminoso
Onde encontra sentido
Vertendo ao mar


O PESCADOR

Outra manhã
Outro dia
O mesmo horizonte
O mesmo mar
O mesmo Céu aberto
O mesmo barco tosco
Deslizando no azul adentro
Perseguindo cardumes fugidios

A mesma cantilena
A mesma voz rouca
As mesmas rugas
Acentuadas pelo sol e salitre
Denunciando a idade

O mesmo temor
A mesma incerteza
O mesmo amor
A mesma esperança


MEU AMOR É ANGOLA

Levanto âncora
Iço velas
Singro águas
E ares
O mar sangra
De emoção

Deixarei saudades no porto
Mas, trago-me no coração
Ao encontro do meu amor
Desde outrora
Em versos expostos

Penetrarei Angola
Sem armas, sem dardos
Sem grilhões, sem argolas
Mas, com elos e laços
E ímpetos de amor


BARRA DE JACUÍPE

Antes da barra
A ponta encimada
Do Jacuípe rio
De águas ferrosas
Que guardam
Profundos segredos
No coração

As feéricas ondas
Arrebentam
Azuis espumantes
Lambendo lençóis brancos
Cobertores e travesseiros
Que comportam a imaginação

Rio e mar
Em sol-maior
Céu azul sem dó
Que amarelece
Antecedendo a noite
E o véu negro floresce
De olhos brilhantes


DONA DO MAR

Tu vens do azul do mar
São ondas os teus cabelos
Sereia és por inteiro
Corpo-ilha de mil segredos

Teu corpo bonito oscila
Por forças de desejos
Dançam ancas quando tu andas
Palpitantes e belos seios

Sereia de água em perfume
Tenho de tu grande ciúme
Da mitológica realeza

Vens comigo dançar
Leva-me contigo ao mar
Quando acenderem as estrelas



COSME CUSTÓDIO DA SILVA, baiano de Salvador, escreve em verso e prosa. Autor de Caderno de Poesias (2003), A Negativa do Corpo (2005), O Bicho Homem (2007) e Recôncavo em Contos (2012), foi premiados em inúmeros concursos literários. Pertence a diversas instituições literárias e edita o zine O Garimpo, que circula nacional e internacionalmente. Os textos selecionados acima fazem parte de seu último livro, “Amor e Mar”(2013).

sábado, 21 de dezembro de 2013

GUILHERME PUPO FALCONNI



CANETA
Hoje peguei uma caneta
que só quer desenhar borboleta...
quando letra, falha, sulca, vinca, ralha,
nem uma palavra.
Só quer correr longe no papel, longas voltas,
circula, cruza, risca...
E outra borboleta...
Nem mais uma palavra.


EXPLICAÇÃO
Quem explica profundamente alguma coisa
é porque não entendeu.
A explicação é assim, uma troca,
um sacrifício,
uma imolação da coisa pela razão que explica.
A explicação é uma troca,
assim;
toda explicação é perversa
pois esconde um não saber;
toda explicação odeia a coisa,
pois nunca a explica toda.
Toda explicação odeia não saber,
isso porque teme.
Toda explicação teme não conhecer.


TEMPO
Teve um tempo,
uma casa,
alguns livros
e bobeiras...
Coisas como confeitos
num bolo mirradinho de recheio
dos olhares que não viram,
abraços amputados,
versos vetados,
e gosto de cigarro.
Teve um tempo
em que não sabia se era feliz.
E não sabia.
E de tanto não saber
se comungou que não era
a cumplicidade de não ser,
e assim,
a sintonia perfeita de acabar,
passar,
calar,
levar um pouco
e ir-se embora.


MOLEQUE
Hoje lembrei dos meus pés
mas não destes, e sim,
dos meus pés de menino
pés de moleque
pés de criança
o quanto é difícil nomear o passado:
"- quando eu era moleque..."
"- quando eu era pequeno..."
"- quando eu tava na faculdade..."
no passado eu não penso,
naquele tempo nunca pensei não estar.
Penso no tempo e em adjetivo,
penso os pedaços, substantivo.
Penso o verbo pensar.
Faz pouco tempo lembrei dos meus pés,
neste dicionário que ganhei de meu pai.


QUERO
Eu quero tanto
mas será outro
dia pra esse pranto


GUILHERME PUPO FALCONNI (São Paulo, 1975) é professor, bacharel e mestre em História pela Unesp. Atua no Ensino Fundamental e Superior em Taubaté, SP. Os versos acima pertencem ao livro 'Livro Último" (Scortecci). Contatos: profpupo@gmasil.com

domingo, 23 de junho de 2013

TIBÉRIO CABRAL CORDEIRO





PÉROLA DA SERRA

Cerro meus olhos sem ver nada igual
Oh! Alterosa pioneira
És a pérola da serra
Rainha da Mantiqueira

Tens águas cristalinas
Ar puro, flores mil
Oh! musa sedutora
És orgulho do Brasil

Teu povo é hospitaleiro
Pode chegar quem quiser
Aqui cabe o mundo inteiro
Venha de onde vier

Quem sobe a montanha
Não vê a hora de chegar
Quando chega se encanta
Não tem pressa de voltar

És florida o ano inteiro
Não importa a estação
Vão se as flores do inverno
Brotam as flores do verão

Quem dera Deus me desse
Mil, mil anos pra viver
Abraçado a essa terra
Até a hora de morrer

Deus te fez bela e formosa
Abençoou o teu chão
Tens a candura da rosa
Óh! Meu Campos do Jordão


A GABRIELA DE JORGE AMADO


Bela morena
Do corpo bronzeado
Musa divina
Da cor do pecado

Cabelo nos ombros
Olhar sedutor
Me curvo a teus pés
Para ter teu amor

Seios formosos
Bumbum rebitado
Vestido de chita
E bem decotado

Andar de gazela
Provoca o desejo
Há quem desse o mundo
Para afogar-se com teu beijo

És a flor que encanta
A rosa mais bela
És sedutora
És Gabriela, cravo e canela

Quem te escreveu
Por Deus estava iluminado
Foi o poeta maior

O imortal Jorge Amado


Tibério Cabral Cordeiro, poeta e escultor, é português, nascido na Ilha de São Miguel, Açores. Veio para o Brasil em 1951 com 8 anos de idade. Frequenta Campos do Jordão há 33 anos e fez da cidade das montanhas sua terra há 7 anos, onde desde então é residente . Hoje, Tibério é ex-funcionário aposentado da General Motors. É aluno da UNIVAP – Faculdade da Terceira Idade, além de ser membro do Rotary Club de Campos do Jordão e membro do Amigos em Ação

terça-feira, 9 de abril de 2013

SIDNEY SANCTUS



SONETO INGLÊS
...Mas se o teu coração vir na colina
d’alma um ódio mesquinho despencando,
recolhe do Jardim a pequenina
flor que na primavera nasceu, quando

tudo era um Paraíso, um livre voo
na liberdade já agora finda. Ando
a procurar tranquilo vale, um Zoo
onde não fiquem homens devorando

semelhantes em ceia leonina.
E toda a violência geral coo
no mar, no grande mar, obra divina
da qual me inundo e assim tudo perdoo,

pois faz do coração pó o odiar;
mister é resistir, viver e amar.


ADÁGIO
Quando emanaste macia, linda, liberta,
trazendo uma suavidade de brisa,
a Lua ficou mais alva e meiga,
cantando brilhantes melodias...
E estragaste a rua escura da noite
iluminando-a com teu fogo aveludado...


SONHOS
 Os meus sonhos em nuvens de esperança
acastelam-se. Tornam-se fogosos,
caminham decididos e garbosos
quando uma luz divina os afiança!

Provocados por vil e vã vingança,
tornam-se pesadelos furiosos,
até que são, tal qual rios caudalosos,
serenados por ventos de bonança.

Ora maravilhosas catedrais,
ora barbaridades criminais,
sonham os sonhos pela Paz alada!

Meus sonhos são estrelas flamejantes,
e tecendo voláteis diamantes,
mesclam-se com nuances de alvorada...! 



   POEMA TACITURNO I
 O barco que foi fulminado
pelo raio cerebral
da esfinge,
afunda no líquido cefalorraquidiano
da meninge...!
A corrente da âncora entalou-se
na laringe
e o mastro entupiu
a faringe...!

As raízes marítimas enroscaram-se
no tronco,
provocando vagaroso esmaecimento
sonolento, sonolento...
O Olho não mais se abriu,
nem os dentes emitiram
o ronco
por causa das gotas
do veneno peçonhento...!

As selvas e o céu
se atrofiaram, amareleceram,
o mar vermelho da nuvem
muito revolto ficou,
e a bucal escada do redemoinho
se quebrou...!

Todas as paisagens da gravura
escura
fugiram, se esconderam;
só ficou o espírito bem temperado
pelo serrote!
Cativo ficou, e não passou
pela vigia
da epiglote...!


CIDADE MINHA
 SANTOS é ao mesmo tempo
sagrada e proscrita.
(Anjo caído nas bocas,
no lodo do cais).
Sinto o sol nas tuas praias,
espalhando aquele calor de liberdade;
observo teus navios
cheios de contêineres, contrabandos
e marinheiros ansiosos
de terra e mulheres;
bebo o teu recuperado mar
ornado de neoninfas, wind-surfs
e o belo nadar do Flipper...!
Amo-te, minha mãe, outrora
açoitada por biônicos demônios,
abençoada por todos os santos!


SIDNEY SANCTUS – É o pseudônimo literário de Sidney Luís dos Santos, nascido aos 17.07.1.960 em Santos / SP. Fez seus estudos fundamental e médio no Colégio Canadá, entre 1.967 e 1.977. Em 1.978, conhece Raul Christiano Sanchez, fundador e presidente da extinta Academia Santista Juvenil de Letras. Sidney fez parte desta Academia, ocupando a cadeira n° 30, cujo patrono era Mário de Andrade. Em 1.979, Sidney Sanctus, juntamente com Raul Christiano, Rafael Marques, Valdir Alvarenga, entre outros, fundam o Grupo Picaré de Arte e Poesia, grupo este que aglutinava escritores independentes, atores, músicos, pintores, cartunistas e artistas diversos. O trabalho do grupo era divulgado pela revista Picaré. Em 1.981, lança o seu primeiro livro de poesias: “Chocolate com Pipoca”, durante a 1ª Feira Nacional de Escritores Independentes, realizada com grande sucesso no Teatro Municipal de Santos. Em 1.982, participa da “Antologia Picaré, uma dúzia de poetas”. Posteriormente, passa a divulgar seu trabalho em várias revistas de poesia independente do Brasil e do exterior. Integrou ainda “Impressões” – Antologia Poética, em 2.009, “Noite das Flores” – Antologia Poética, em 2.010 e publicou “Musa Atômica” – coletânea, em 2.011. Atualmente, é co-editor da revista Mirante. Sua poesia geralmente é hermética, pois foi fortemente influenciado pelos poetas simbolistas e surrealistas. Sua forma preferida é o soneto, e embora respeite as duas rimas obrigatórias nos quartetos, métrica, acentuação e chave de ouro, seu soneto é ultramoderno, com imagens e musicalidade inusitadas, dignas do século XXI, porém, o poeta não despreza o chamado verso livre. Quanto à temática, seus poemas geralmente expressam “os sentimentos do homem perante a colossal magnitude do Universo”. 

                                               CONTATOS: 
Orkut / Facebook: SIDNEY SANCTUS




domingo, 10 de março de 2013

RUY PROENÇA



ENCONTRO

Chegam primeiro
os ventos quentes.
Tomam de assalto
a cidadela.
Os circuitos de proteção
automaticamente
se desligam.
As pontes levadiças
baixam.
Um leque
de ventosas invisíveis
se abre
lentamente
sobre a imagem
do outro
que se aproxima.
Quanto mais se aproxima
mais se revela
sua geografia
de espinhos,
seu corpo
de minúsculos
guarda-chuvas.
A ilha de ventosas
uma a uma
as lanças embainha.
Traz ainda
estoque
de matéria
aderente.
Por um instante
antes de regressar
à escuridão particular
duas impossibilidades
se misturam.


TORMENTA

e vieram os pássaros
e bicaram-lhe os olhos

e vieram os martelos
e pregaram-lhe as unhas

e vieram os funis
e forçaram-lhe
goela abaixo
o que não queria
de jeito nenhum


DESENRAIZADOS

cortaram nossas raízes:
por isso
deixamos de ser árvores

ainda podemos escolher
ser pássaro, peixe
ou outro movimento
que viaje na água
ou no vento

mas nossa consciência de aço
falso (sucata)
pesa sobre nossos ossos

e mal conseguimos
ensaiar um passo


TANTO PESO

uma canoa de ferro
pousada
sobre a areia

ninguém sabe
de onde veio
de que noite

uma canoa de ferro
esperando talvez
braços

que a empurrem ao mar
e com ela
se lancem


FRONTEIRA

Nasci de um acaso.

Como esse muro
à minha frente
alto
dividindo duas vizinhanças.

Alguém me deu à luz,
alguém me tirou a luz.

Não vejo o mundo:
miro o muro.

Dele conheço
cada detalhe.


TIRANIAS

antigamente
diziam: cuidado,
as paredes têm ouvidos

então
falávamos baixo
nos policiávamos

hoje
as coisas mudaram:
os ouvidos têm paredes

de nada
adianta
gritar


Ruy Proença nasceu em São Paulo, a 9 de janeiro de 1957. Engenheiro de minas. Publicou, entre outros,  Pequenos Séculos, Editora Klaxon, São Paulo, 1985; A lua investirá com seus chifres, Editora Giordano, São Paulo, 1996. Participa da Anthologie de la poésie brésilienne, organização de Renata Pallottini, Éditions Chandeigne, França, 1998. Desde 1990 integra o grupo Cálamo de criação poética. Os textos acima fazem parte do livro "Visão do Térreo"(Editora 34, 2007).










quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

JOÃO EDUARDO NETO





A Eternidade no Templo

Anjos
 Uma legião de anjos
Luzes que saem das frestas da garganta
 Preenchem a alma
Elevam
 Espantam...
Um templo adentro do tempo do som
 Mortais elevados ao céu por vozes....
 Tons musicais..
Um povoado de luz dançando entre seres comuns... Méritos aos ouvidos
 A alma inteira
 Ao espírito....
 Vibração incomum tocando a todos na unicidade...
 Um tempo
 Um templo
 Um momento
A eternidade...     



A Felicidade do Poeta
 A Felicidade do poeta
É  feita de pedaços dos segundos
Pedaços dos segundos
Segundos
Que ele tem em seu dia
É feita dos pedaços das pessoas
Pedaços das pessoas
Pessoas
Que ele vê no caminho
É feita das coisas que toca
Do amor que está ao lado
É a felicidade sentida e construída
Sentida e construída
Construída
Pelos momentos que vive
A felicidade do poeta
É feita dos pedaços que ele encontra no caminho
Pedaços do caminho
Caminho
Pedaços de vida
Felicidade de poeta
É pedaço de palavra
Pedaços de palavras
Poesias...


A Morada da Humanidade

Descubra seus desertos
Faíscas de seus mundos paralelos
A unicidade do que é eterno
Construa a primavera em seus invernos
Borde momentos em sua mente
Plante sentimentos em sua morada
Do amor lance a semente
Do universo faça sua estrada
Seja cada segundo
O tempo
A vida
O mundo
Desenvolva o absurdo
A simplicidade de tudo
Ame
Reflita
Expanda
Seja o Deus da terra santa
Emane, vibre, irradie
Desperte
Desapegue
Crie
Aceite
Agradeça
Sinta
Dentro de todos mora a verdade!
Faça de seu jardim interior
A  morada da humanidade...


Comunhão

A natureza é tudo que sou
Vôo com ousadia
Lágrimas sagradas me curam
As aventuras de um messias
Faço da realidade ilusão
E da ilusão realidade
Crio meus mundos paralelos
Estão neles todas as verdades
Levito como o vento
E pouso sutilmente
Sou feito dos pedaços espalhados no universo
Fragmentos, profecias, sementes
Minha alma nua não tem sexo
Meu espírito é livre
Só amo e me entrego
Intensidade
Certezas
Mistérios...


Conselho

Nossos momentos de tristezas são as boas novas de grandes momentos de alegria, existem motivos para tudo e mesmo que não estejamos no tempo necessário para nossa compreensão, quando o barro seca, brota a certeza em nosso coração de que tudo é como deve ser, e se o inverno chegou secando todas as nossas lágrimas com a geada e tirando toda a cor de nosso jardim, é por que ainda virá a primavera para colorir nossa alma e deixar que ela se limpe, e assim teremos a certeza de que cada detalhe em nossa vida é importante para nossa evolução....



A PALMA DO POETA

A  palma do poeta é pena
Tinta, pincel, dádiva
É o próprio poema...

O poeta desenha com as palavras
Ele esculpi, transcede
Pinta, ascende...

Há poesia na terra, nas folhas
Nos dons da pessoa
Na alegria, na nostalgia
Na noite  e no dia...

Há poesia
Na dança do vento
No canto das águas
Em uma estrada vazia...

O poeta é desbravador dos momentos
O poeta é heroi
Cativa, desvela, constrói...

O poeta te destina
Te descreve
Te rima

E dele nada se entende
Pois poetas são abstratos
Loucos
Paralelos...     



Poeta e Professor de Campos do Jordão, organizou a exposição “Desenhos e Poesias”, em 2012, na AmeCampos. Prepara seu primeiro livro.